
O vendedor explicava-me como utilizar o aparelho maravilha por forma a manter a casa sempre imaculadamente limpa.
No fim da explicação perguntou-me:
- Tem alguma dúvida a que queira que eu responda?
Pensei durante um instante e disparei de chofre:
- Donde é que vêm os pensamentos?
- Como?... - Sobressaltou-se o homem.
- Donde é que vêm os pensamentos? - Repeti. E, depois de pensar meio instante, acrescentei - E para onde é que vão?
- Não sei se compreendo... - Abriu o vendedor muito os olhos.
- É simples. - Clarifiquei. - Todos os dias somos assaltados por milhões de pensamentos. Pensamos no que vestir, o que vestir, o que comer, de quem gostamos, de quem não gostamos, nque aconteceu há dez anos, no que vai acontecer daqui a dez anos, o que fazer agora, o que fazer a seguir... Pois bem, a minha questão é donde vêm essa multidão de pensamentos?
O vendedor olhava perplexo para mim.
- Nunca se fez esta pergunta? - Insisti.
- Bem... não... - Confessou encavacado o vendedor.
- Eu não sei donde vêm, mas acho que há uma roda gigante a girar dentro de nós.
O homem olhava-me gravemente sem soltar uma palavra.
- Uma roda que... - Continuei. - Como lhe hei-de explicar? - Uma roda... uma roda... uma engrenagem a girar no vazio. Uma engrenagem em constante movimento, mas nós só conseguimos ver a roda de frente... tipo como se olhássemos para uma tela de cinema... só percebemos que está em movimento porque os pensamentos começam a surgir tenuemente na ponta esquerda e... VRUM!!!, desaparecem pela ponta direita. Não se consegue contabilizar-lhe a duração, o peso ou qualquer outra característica ou qualidade. O que lhe parece.
O vendedor coçava intrigado o cocuruto da cabeça.
- Claro que há outras hipóteses. - Prossegui entusiasmado anets dele ter tempo de responder. - Também já pensei num daqueles monitores de hospital que se vêm nos filmes. Está a ver? - Interroguei. - Daqueles que servem para ver os sinais vitais. Há uma linha que é o nada e de repente PIP!, lá vem um pensamento e outro e outro e outro. PIP!!! PIP!!! PIP!!! Nessa perspectiva os pensamentos são o que nos separa da morte... são o oposto de estar morto, sendo a morte o estado que precedeu o nosso nascimento e aquilo que nos espera quando o corpo colapsar.
Hesitei um segundo e embalei para uma outra ideia:
- E agora que penso nisso, observo que há ainda outra analogia que podemos fazer: os pensamentos são quase como as linhas na folha acabadina de retirar dum sismógrafo após um terramoto. Os pensamentos são como um tremor de terra dentro de nós.
Expliquei triunfante.
- Só que - continuei refreando o meu entusiasmo -, evidentemente, nada disto responde à minha questão inicial: donde é que vêm e para onde é que vão os pensamentos. Tanto a roda-tela-de-cinema, como o monitor dos pensamentos-vida como os pensmaentos-folha-de-papel-do-sismógrafo são imagens que enquadram e descrevem os pensamentos mas não me dizem nada sobre a sua origem e verdadeira natureza.
Seguiu-se um silêncio comprometido até que o vendedor arriscou perguntar:
- Mas sempre compra o aparelhozinho ou não?