
Estruturas a toda volta asfixiam-me,
como se me manobrassem,
tal qual fosse eu uma marioneta,
como se um grua gigante se estendesse por todo o espaço onde gasto as solas dos meus sapatos,
puxando os cordelinhos a todos os meus movimentos,
com sacudidelas grotescas mas cirúrgicas,
onde eu estive hoje seguiu-me sempre uma sombra ameaçadora...
nunca consigo distinguir a sombra dum prédio da grua mãe que me sentou nesta cadeira a escrever estas palavras
um puxão suave
e eu teclo
t-e-c-l-o
letra a letra
até formar as palavras
bizarramente irreais no monitor do meu computador...
estas palavras que leio agora são estranhamente ambíguas
são reais e irreais...
podia apagá-las todas
ou pelo menos as últimas...
não faço a mínima ideia de como continuar este texto
sei que terminará com a expressão-trocadilho que dá nome a este post
"ex-torturas", variação-delírio fonético de "estruturas"...
(pausa para reler)
a grua mãe continua a sacudir os cordelinhos
c-o-r-d-e-l-i-n-h-o-s
e as palavras continuam a ter uma natureza relativamente precária
se as escrevesse numa folha de papel talvez pudesse amarrotá-la e deitar para a caixa dos papéis,
e quem sabe alguém a descobrisse um dia numa linha de reciclagem de papel e exumasse este instante,
mas se eu decidir apagar estas linhas do computador
elas perder-se-ão para todo o sempre
este momento desfar-se-à em fumo na chama viva da minha memória
do meu "estar vivo aqui e agora"
(pausa para pensar - continuo sem saber como saltar para a palavra final deste texto que tem princípio e um fim, mas se perdeu perigosamente pelo labirinto do meio)
Uma grua gigante brinca comigo
como se eu fosse um boneco nas mãos do Mestre dos Marionetas
e esse Mestre das Marionetas sou eu próprio
só que não conheço o argumento da minha vida
posso apenas extrapolar, sonhar, recordar...
Estruturas a toda a volta asfixiam-me,
gostava de estar num monte tão alto onde o céu aberto me convencesse de que não há fios presos aos membros
e eu pudesse dançar uma dança maluca
uma dança da liberdade
onde se me pudesse ver sem ter nenhum espelho por perto
ver-me, mas ver-me mesmo
e onde as estruturas fossem ex-torturas.