Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

terça-feira, fevereiro 13, 2007

No Caminho Da Eternidade


Recentemente o Mundo inteiro ficou tocado por uma história surpreendente... a descoberta de duas ossadas, pertencentes a duas pessoas, que morreram há muito tempo... abraçadas para sempre.
Li sobre esta história e a sua descoberta... de facto há coisas tão simples que parecem pertencer a contos de fadas ou a algum romance imaginário, escrito por alguém super dotado.
Num jornal inglês lia-se que os arqueólogos e as pessoas, que com eles procediam às escavações, quando se depararam com tal cenário ficaram sem dizer nada durante um longo período de tempo, houve até quem chorasse.
A mensagem daquelas duas pessoas era mais que evidente.
Um testemunho de um ser humano que quis amar um outro ser humano para sempre...
Há no Mundo algo maior que os Homens, algo para além da nossa compreensão.
Uma prova de amor para a humanidade foi o que estas duas pessoas deixaram e, em plena era materialista, fomos abalados por uma imagem tão forte que nos deixa a pensar...
No fundo de nós mesmos desejamos amar assim, para todo o sempre...

Pretérito perfeito


As memórias são um olhar para fora que nos traz para dentro.

Lembro-me do dia em que fomos tomar banho à velha pedreira abandonada. Que idade tinhamos exactamente? Não consigo recordar... Acho que éramos ainda novos demais para acreditar que um dia seríamos adultos.

Gostávamos de ficar a chapinhar na água que se acumulara nos buracos donde fora extraída a pedra. Acho que nessa tarde faltáramos às aulas para usufruir daquele nosso pequeno paraíso.
Também não recordo duma forma muito clara a forma como começou a discussão... Sei que nos desentendemos. Do nada surgiu um atrito que nos fez enrugar a testa e levantar a voz. Tu pegaste na tua roupa e afastaste-te de mim a passos largos.

Eu fiquei a ver-te desaparecer atrás duma árvore e exclamei em voz alta:

- Estúpida!

Não tenho dúvidas de que estava zangadíssimo. Não falámos durante uns dias, depois voltou tudo ao normal. Também não tenho nenhuma ideia da reconciliação. Depois o ano lectivo acabou e acho que nunca mais nos tornámos a ver... Se não estou em erro o teu pai foi trabalhar para fora.

É tudo muito vago e indefinido... pergunto-me se terás existido mesmo ou se não terás sido apenas mais um produto da minha imaginação.

Todas as memórias são perfeitas no sentido em que com o tempo ganham sentido e nos dão a ilusão de que a nossa vida tem sentido... não te parece?

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A Profecia

Lá longe num mundo que é Lei,
há-de um dia o Homem morrer,
não porque o seu Tempo chegou,
mas por a Máquina o escolher.

domingo, fevereiro 11, 2007

Hangar da Luz


Sinto o meu velho corpo desgastado por todas as missões empreendidas no mundo dos homens...

Vejo-me ao espelho e sinto-me um pouco como um velho avião de guerra em que a tripulação gravou poemas, desenhos e símbolos na fuselagem, transformando-o num gigantestica mensagem de desespero e resignação prestes a descolar para mais um voo para além das linhas inimigas...

Só que os ditos poemas, desenhos e símbolos não estão gravados a ferro em brasa no meu corpo, mas sim tatuados em fumo na minha alma.

Cansam-me os homens... talvez fosse já o tempo de recolher ao hangar e transformar-me num museu à memória da Humanidade.

Mas amanhã há um novo dia... e porque não uma nova aventura pelo mundo dos homens?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

À velocidade do pensamento



O vendedor explicava-me como utilizar o aparelho maravilha por forma a manter a casa sempre imaculadamente limpa.

No fim da explicação perguntou-me:

- Tem alguma dúvida a que queira que eu responda?

Pensei durante um instante e disparei de chofre:

- Donde é que vêm os pensamentos?

- Como?... - Sobressaltou-se o homem.

- Donde é que vêm os pensamentos? - Repeti. E, depois de pensar meio instante, acrescentei - E para onde é que vão?

- Não sei se compreendo... - Abriu o vendedor muito os olhos.

- É simples. - Clarifiquei. - Todos os dias somos assaltados por milhões de pensamentos. Pensamos no que vestir, o que vestir, o que comer, de quem gostamos, de quem não gostamos, nque aconteceu há dez anos, no que vai acontecer daqui a dez anos, o que fazer agora, o que fazer a seguir... Pois bem, a minha questão é donde vêm essa multidão de pensamentos?

O vendedor olhava perplexo para mim.

- Nunca se fez esta pergunta? - Insisti.

- Bem... não... - Confessou encavacado o vendedor.

- Eu não sei donde vêm, mas acho que há uma roda gigante a girar dentro de nós.

O homem olhava-me gravemente sem soltar uma palavra.

- Uma roda que... - Continuei. - Como lhe hei-de explicar? - Uma roda... uma roda... uma engrenagem a girar no vazio. Uma engrenagem em constante movimento, mas nós só conseguimos ver a roda de frente... tipo como se olhássemos para uma tela de cinema... só percebemos que está em movimento porque os pensamentos começam a surgir tenuemente na ponta esquerda e... VRUM!!!, desaparecem pela ponta direita. Não se consegue contabilizar-lhe a duração, o peso ou qualquer outra característica ou qualidade. O que lhe parece.

O vendedor coçava intrigado o cocuruto da cabeça.

- Claro que há outras hipóteses. - Prossegui entusiasmado anets dele ter tempo de responder. - Também já pensei num daqueles monitores de hospital que se vêm nos filmes. Está a ver? - Interroguei. - Daqueles que servem para ver os sinais vitais. Há uma linha que é o nada e de repente PIP!, lá vem um pensamento e outro e outro e outro. PIP!!! PIP!!! PIP!!! Nessa perspectiva os pensamentos são o que nos separa da morte... são o oposto de estar morto, sendo a morte o estado que precedeu o nosso nascimento e aquilo que nos espera quando o corpo colapsar.

Hesitei um segundo e embalei para uma outra ideia:

- E agora que penso nisso, observo que há ainda outra analogia que podemos fazer: os pensamentos são quase como as linhas na folha acabadina de retirar dum sismógrafo após um terramoto. Os pensamentos são como um tremor de terra dentro de nós.

Expliquei triunfante.

- Só que - continuei refreando o meu entusiasmo -, evidentemente, nada disto responde à minha questão inicial: donde é que vêm e para onde é que vão os pensamentos. Tanto a roda-tela-de-cinema, como o monitor dos pensamentos-vida como os pensmaentos-folha-de-papel-do-sismógrafo são imagens que enquadram e descrevem os pensamentos mas não me dizem nada sobre a sua origem e verdadeira natureza.

Seguiu-se um silêncio comprometido até que o vendedor arriscou perguntar:

- Mas sempre compra o aparelhozinho ou não?


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

As Pedras Também Vivem


Lembro-me de um Tempo em que até as pedras viviam...
Em que o meu acordar era Vida,
qual sopro divino...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Nave carril

...e chegou o dia da partida.

"Levas-me contigo?" Perguntaras incontáveis vezes.

"Claro." Respondera sempre eu, sem hesitação, sem sombra de dúvida, sossegando-te com a minha mão sobre a tua.

Mas a verdade é que no dia da partida não te chamei...

Cobardia? Realismo? Medo?

Não o sei dizer.

O facto é que a terra avançou mar adentro e eu nem sequer olhei para onde ficava a tua casa... nem um último olhar guardei para a despedida.

A distância entre nós aumentou virtiginosamente embora o número de passos entre a minha nave e a tua casa se mantivesse insolitamente inalterada.

Eu era o viajante e a viagem, eu era o veículo e o caminho...

Não me recriminarias tu um dia por eu te ter trazido na minha jornada?

Não me recriminarias tu um dia por eu te ter deixado para trás?

Não me recrimanaria eu um dia por não te saber amar?

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A Barca dos Sonhos


Há muito, muito Tempo ele prometeu a si mesmo ser um marinheiro que embarcaria, um dia, numa viagem alucinante rumo ao seu próprio destino.
Nada o deterá, a sua alma já se encontra algures onde a realidade já deixou de existir e, cada dia que passa, mesmo que seja só em sonhos, ele reencontra aquele menino que, olhos nos olhos, um dia prometeu a si mesmo embarcar na sua barca dos sonhos... esteja onde estiver, venha o que vier e haja o que houver ele viajará toda a noite rumo à Luz de si próprio...
Porque o seuTempo chegou!
E um dia será dono do seu próprio destino!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O mundo não ouve


O mundo não ouve... Por mais que eu grite e esperneie o eco das minhas palavras morre no ruído de fundo do mundo.

O mundo não ouve... o mundo não quer perceber que o melhor som do mundo é a minha voz...

Se eu fosse o rei do mundo todos viveriam muito melhor... eu pelo menos não tenho dúvidas de que viveria muito melhor...

Venha uma revolução que me coloque no trono do mundo!

Mas o que faria eu então? Encostava a uma parede diante dum pelotão de fuzilamento todos os que os que não me ouvissem? Talvez esse fosse um momento tão bom como qualquer outro para aprender também eu a ouvir...
Talvez este seja um momento tão bom como qualquer outro para começar também eu a ouvir!...

O mundo somos nós... só é pena sermos surdos e mudos para tudo o que não ecoe os nossos pensamentos.

domingo, fevereiro 04, 2007

O Começo De Uma Qualquer História


Naquele imenso estuário veio-me à ideia de que a tua história bem poderia ter sido a minha. Que num qualquer lugar do Tempo eu estava onde tu estás e tu existias onde eu estou. Eu olhava para ti sem saber que, num qualquer ponto do Universo, a minha história começava no momento em que tu nasceste. Porque a tua era a minha história.
No horizonte que contemplei, imaginei as histórias que começavam, aquelas que acabavam e aquelas em que eu poderia ter habitado.

sábado, fevereiro 03, 2007

Lentidão


Ah! A inigualável sensação de estar sentado nos dias com se dum divã se tratassem... olhar para os pensamentos e ver pássaros a cruzar o infinito.

Que maravilha é beber o mar com os olhos como se dum refresco se tratasse.

A tarde passeia dentro de mim num jardim à beira mar... Se existe um paraíso ele esconde-se dentro de nós.

Haverá maior felicidade do que preguiçar no período de tempo fronteiriço entre a Alegria e a Tristeza?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Diário de um louco

Percorri a rua onde o frio da pedra cinzenta me acompanhou, incessante e contundente. O espaço onde me movi deixava de existir assim que, passo a passo, me deslocava e saía daquele lugar.
Apressadamente saí dali.
Não eram gentes quem se cruzava comigo, eram demónios de capa negra que voavam entre paredes de pedra e que nelas habitavam.
Fechei os olhos para que o olhar devorador de quem me fitava não me cegasse.

Corri para dentro de um pátio onde alguém me sorriu... aquele lugar confundia-se com aquela presença brilhante e apaziguadora. Ao seu redor uma auréola ténue e azulada fazia-me sentir em casa.
Aquela presença apontou-me para um canto onde jazia uma folha caída em cima de outra folha.
Uns segundos depois aquela cor quente encheu aquele lugar e eu acordei junto ao mar num lugar de um imenso azul...

Alguém me chamou... mais um doente deu entrada nas urgências... e eu fui trabalhar...

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Longe de Ti


Porque será que é precisamente quando estás tão perto que o meu bafo bate em ti devolvendo o calor à minha pele que te sinto mais longe?

Na tua ausência vejo-te Aqui com os olhos da saudade.

Vejo-Te mesmo, através do olho do meu amor.

Não haverá um barco que eu possa tomar para subir o rio da Vida rumo à cidade que tu És?

Não poderei eu ainda um dia deslumbrar-me com a visão da chegada junto ao porto que atraca em Ti, desembarcar na luz da tua Presença e subir as estreitas e labirínticas ruas que levam à casa onde vive a tua Verdade Absoluta?

Em que língua me poderia responder uma Ilusão?

terça-feira, janeiro 30, 2007

A Torre Sem Nome


O lugar do Tempo surge nos meus sonhos,
lado a lado com imagens desesperadas,
de árvores que procuram abrigo,
na velha Torre sem nome.

Saberão as árvores dizer,
se na roda da Vida,
valerá procurar abrigo,
mesmo sabendo que não se o tem?

A dor ar



A dor ar...

A dor é o ar que inspiro e expiro.

A dor é o tudo à volta e o nada em redor.

A dor respira-me e pensa para com os seus botões que eu sou um tipo de poluição que urge combater.

A dor decide que chegou a hora de me proibir em todos os recintos fechados e em todos os espaços abertos.

A dor aumenta-me o preço e calcula montantes para as multas a aplicar caso alguma das suas irmãs tente sacar-me de dentro dum maço de melancolia.

Ai de quem seja doravante apanhado a fumar a minha dor!!!

sexta-feira, janeiro 26, 2007



Sinto-me suspenso pela Luz que me envolve e à qual pertenço,
faço parte daquele lado de lá,
onde escuto,
outras formas de existência.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Debaixo dum céu impossível



A minha sombra é a prova científica da existência do centro de gravidade da luz do sol, mas a verdadeira Luz fica para lá do contorno das pessoas e das coisas... fica onde há uma completa ausência de escuridão ...e aí as sombras não têm lugar.

Era uma viagem a empreender, largar tudo e partir em demanda desse lugar onde nada vive ou morre aos meus pés... mas, desafortunadamente, a minha pele é muito mais do que uma casa cheia de Nada.


Serei comedido em relação a esta questão - contentar-me-ei com o facto do meu corpo ser um ponteiro do relógio que dá as horas à Eternidade.

terça-feira, janeiro 23, 2007

No Dia Em Que A Natureza Chorar

Sempre gostei da andar à chuva. Hoje foi um dia desses...
No entanto senti que algo não estava bem, ou era eu, ou algo à minha volta...
Havia alguma mensagem algures naquele Parque, pensei eu.
Imaginação minha certamente... mas aquela estátua parecia ter lágrimas, seria essa a mensagem? Que coincidência.... a gota estava exactamente no lugar e Tempo certos. Eu também estava no lugar certo para testemunhar e fotografar o momento...

domingo, janeiro 21, 2007

Porta com porta


Acordo todos os dias como se num sonho estivesse. Uns dias o sonho é bom noutros é mau - por vezes é mesmo um pesadelo.

O despertador também sabe tocar dentro dum sonho, sabiam?

Quando saio para o trabalho nunca sei qual foi a porta por que saí... Saí pela porta da realidade ou pela porta do sonho? É difícil dizer, elas ficam uma ao lado da outra, como o reflexo produzido pelo espelho duma realidade paralela onde o limite é a imaginação.

Eu sei que não é desculpa, mas a verdade é que eu sou um pouco distraído. Já me aconteceu sair pela porta da realidade e deixar a chave na porta... À noite quando cheguei a casa procurei a chave em todos os bolsos, acabando por encontrá-la na fechadura. Tive sorte, ninguém deu por ela... mas entrei em casa auto recriminando-me ferozmente.

É usual deixar a chave na porta dos sonhos, faz sempre falta uma pitada extra de ilusão nessa grande ilusão que é a vida. Também já me aconteceu trazê-la por engano no bolso da minha mente... foi um dia muito estranho e bizarro: é insólito ver os sonhos dos outros quando temos os nossos próprios sonhos fechados em casa.

Nunca mais!

Mas o que ia ter piada era era um dia esquecer-me da chave na porta dos sonhos quando estivesse mergulhado num sono profundo e fecharem-me dentro do sonho.

E talvez tenha sido isso mesmo que aconteceu... que provas tenho eu do contrário?

Como saimos dum sonho se não sabemos que estamos a sonhar?

Hmmm... Preciso de alguém que me acorde.

sábado, janeiro 20, 2007

Vermelho frio


Ilusões numa cidade fria,
resgatam a alma para os confins dos sentidos.
Revejo-me e não me conheço neste lugar,
onde as metáforas da realidade,
me levam para lugares sem destino.

Além, onde a catedral se ergue,
a noite é rasgada pela sua côr,
ao luar de um vermelho frio,
sinto o que ninguém sonha,
procurando a sombra de uma flôr.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

As duas luas


Tenho duas luas na minha sala. Há duas luas cheias a adornar o céu do meu mundo. As marés dos 70% de água por que é constituido o meu corpo vão e vêm ao sabor dum acende/apaga nos meus dedos. A astrologia do signo da minha vida resume-se ao acender e apagar do interruptor. Tenho o destino na ponta dos meus dedos.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Histórias Na Floresta Mágica


Acordo e vejo-te,
estás a caminho de um lugar,
onde irás perguntar a ti mesmo,
porque razão a tua sombra não te acompanha...

Lá, onde não existem sombras, é onde nascem os sonhos,
é onde nasceu o Universo,
é onde tu e eu pertencemos...

Escuta o silêncio, o teu silêncio...

Dá-me a mão... eu guiar-te-ei...

Na boca de mil demónios dum buraco negro esconde-se sempre um segredo de Luz.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Gaivotas em terra


"Gaivotas em terra, tempestade no mar." Diz o provérbio.

Mas quando a tempestade for no nosso coração qual será o sinal?

Quem são as gaivotas e onde é a terra quando se anuncia uma tempestade no coração?

Hmm...

Palavras desconexas na boca, tempestade no coração?...

"Hoje o dia está muito bonito, só faltava passar aqui um jacto supersónico para ensurdecer o grito a dizer AMO-TE que está entalado na minha garganta!" Diria com os meus olhos se a minha imaginação não fosse refém das palavras mal engendradas pela minha mente.

Ah!, a magia das palavras grávidas de imagens!

domingo, janeiro 14, 2007

Escrito nas folhas


Nesta manhã serena e secreta, tento ler nas folhas qual o meu destino, talvez um dia saberei a mensagem que os deuses guardam para mim.
Procuro não lhes tocar para que o segredo continue como foi enviado.
A brisa da manhã deixa cair algumas "letras" desta mensagem que ao anoitecer me foram enviadas.
É sómente a Natureza a dar-me a ajuda que pedi.
De repente tudo faz sentido, mais uma lição aprendida... quando um momento nos é dado, quer seja pelo destino ou por outra razão qualquer, há que ter consciência de que esse momento nunca se repetirá. Nunca mais aquelas gotas, que habitavam na folha antes da brisa as ter levado voltarão a estar naquele lugar, naquela hora, naquele Tempo.
Da próxima vez, e sempre que puder, direi o que possívelmente nunca mais poderei dizer, porque nada se repete... porque as minhas palavras poderão perder-se para sempre, como aquelas gotas...

Velocidade da Luz


Encostara o meu carro à berma. Cansaço talvez. A viagem durava há muito, mas só agora era altura do regresso a casa. Tentei calcular dali a quantas horas poderia dizer "lar doce lar". Podia contar com todo o tempo que gastara até chegar àquela vereda e mais ainda o imposto de valor acrescentado inerente a um dia que já ia longo.

Aspirei o ar frio da noite que implacável se aproximava. Íria fazer toda a viagem às escuras, atravessando longas extensões de estrada que passavam por lugar nenhum. Talvez o carro avariasse, talvez não houvesse rede de telemóvel, talvez eu adentrasse a noite escura, como quem mergulha num passado distante, onde não há carros, nem telemóveis, nem bilhetes de identidade, e a manhã encontrasse apenas o meu carro abandonado na borda da estrada, porta aberta e o rádio a cantar uma canção para ninguém.

Um carro dobrou a curva e aproximou-se de mim encadeando-me com a luz branca dos seus faróis e desapareceu para trás das minhas costas.

Um carro passou de cá para lá, deixando uma memória vermelha que se gravou a fogo no meu olhar, continuando a ver-se mesmo muito depois de se ter desvanecido para além da curva.

Os dois carros cruzaram-se no meu olhar, talvez à velocidade da luz, e levaram-me para norte e para sul, para poente e para nascente, para ali e para além... o meu carro ficou com a porta aberta, o rádio continuou a cantar uma canção para ninguém.

sábado, janeiro 13, 2007

Sexta-feira 13


Sexta-feira 13...

Esta frase revela todo o embuste que nos rodeia acerca da verdade.

Enquanto eu dizia Sexta-feira o relógio deu o salto mágico para o dia seguinte e 13 é realmente o sábado que sucedeu à Sexta-feira.

Assim, ao fim ao cabo, e embora houvessem já homens dispostos a morrer pela Sexta-feira 13 (os fundamentalismos são um dos fenómenos humanos mais populares) na realidade "Sexta-feira 13 Sábado" sucede a "Quinta-feira 12 Sexta-feira".

sexta-feira, janeiro 12, 2007

A Árvore Da Luz

Não quero escrever das guerras, hoje,
nem tão pouco do Homem que tira a Vida a outro Homem.
Hoje quero sentir o vento da Vida,
o sopro da existência que sai de uma qualquer árvore,
simplesmente tocando-lhe.
Quero sentir o olhar das crianças quando não sabem onde estão,
para as apaziguar e fazê-las sentir seguras.
Quero saber voar para ver o mundo de que faço parte,
não para ser dono de alguma coisa, mas para vislumbrar onde me foi concedido habitar.
Quero ser aquela ave, a que voa mais alto que uma montanha,
aquela que me disse um dia,
"vem, acompanha-me, vou mostrar-te o meu mundo, aquele que os Homens não querem partilhar".
Quero ouvir a melodia de um amanhecer,
juntamente com toda a Humanidade, em silêncio, e em todos os cantos do mundo.
Quero congelar todos os momentos para os levar comigo até à Eternidade,
porque desse lado não há um Tempo, esse lado é o Tempo,
e nesse Tempo estaremos Todos juntos... novamente.
Quero sentir o que ainda nem os sentidos entendem,
quando vejo a verdade ser usada em nome da destruição e morte.
Quero entender o meu lugar num Universo que um dia me fez existir,
juntamente com tudo o que me rodeia...
Quero perceber a árvore que um dia deixou passar a Luz,
para que eu soubesse, nesse mesmo instante, como seria estar perante Deus.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

A Caminho


E a melodia levava-me a um lugar onde eu tocava o céu, onde eu descrevia um arco num imenso azul.
Ao sabor do vento eu olhava o Caminho... e voava... tendo aves a meu lado como guias, pégasos como companheiros e um Tempo infinito dentro de mim...
Os Deuses lá em cima olhavam-me como se fosse um deles... porque nada, mesmo nada me conseguiria deter no meu Caminho...
E sempre a melodia dentro de mim a guiar-me mais além, para mais além.... para o lugar dos sonhos, para um lugar onde habita a essência de todo o Universo...
Sinais vindos do céu em forma de música alimentavam a minha alma, e eu sabia que o Caminho era este mesmo...
E a caminhada prossegue... o grupo agora é enorme, todos juntos somos um cometa de Luz, onde de mãos dadas, entramos no mundo dos sonhos...

terça-feira, janeiro 09, 2007

O jornalista do dia sem notícias

Coube-me em sorte, de acordo com o novo decreto-lei que estipula que todos os cidadãos devem ser jornalistas por um dia, a data de hoje para levar o noticiário à vasta comunidade humana que se espalha pelos quatro cantos do planeta.

Devo concluír que de facto sou uma pessoa pouco afortunada, pois nenhum evento digno de nota ocorreu durante aqueles que deveriam ter sido os meus 15 minutos de fama.

Não caíram aviões, nenhuma guerra se iniciou, zero barcos naufragaram, não houve atentados terroristas, não se registaram acidentes de trânsito e sobretudo, azar dos azares, ninguém morreu.

Assim sendo, resolvi encher o telejornal mundial com imagens do bater das ondas na praia.

Não sei se houve reclamações, telefonemas indignados, vozes iradas, mas o facto é que, recordem, hoje não houve nada de significativo... não aconteceu nada de mau no mundo - deixarei apenas este facto a abonar em minha defesa.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Um porto que me abrigue


A minha sina é vogar
de lugar em lugar,
A minha nau
não é feita de pau,
É feita de histórias
que me abarrotam a memória,
Ocupam todo o espaço
e não me deixam ver o que faço,
E por mais que me afadigue
não encontro porto que me abrigue,
A minha armada não é invencível
embora a demanda seja imperecível...
Recorda-te de mim quando enfim
naufragares também tu neste mar sem fim.

O Tempo do Sonho


Para algumas tribos australianas antes de toda a existência (antes do mundo existir, homens, animais e plantas ) existia o Tempo do Sonho.
Interessante esta "lenda" aborígene.
Quem sabe se tudo o que existe foi de facto o sonho de alguém, de uma qualquer "coisa", Deus se quisermos.
Seremos um sonho feito realidade, ou, variávelmente, uma realidade que não passa de um sonho?
A verdade é que possuímos uma percepção muito limitada do que é possível...

domingo, janeiro 07, 2007

O Livro dos Dias


Saber ler os dias como quem lê um livro é saber ver em cada segundo uma letra, em cada minuto uma palavra, em cada hora uma frase, e descobrir nas pequenas ninharias a que ninguém dá importância uma linguagem mais antiga do que a própria mente que inventou todas as linguagens.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

"Uma outra viagem..."


Há momentos inesquecíveis que, como já referi aqui, nos marcam pela simplicidade e ao mesmo tempo pela grandiosidade do momento ou acontecimento... ou simplesmente seja eu que me deixe deslumbrar com isso...
Uma noite, já bem pela madrugada dentro, caminhava pelo corredor do hospital onde se amotoavam macas com doentes que, a muito custo, tentavam descansar apesar do barulho de vozes e do "entra e sai" constante de quem aí trabalha.
Reparei numa senhora bem idosa que olhava para os soros que tinha pendurados no suporte perto da sua maca com um sorriso sereno. Não sei a razão de ter reparado nela, mas certamente algo me despertou a atenção, quase tenho a certeza de que eram os olhos grandes que tinha, raro em pessoas idosas, mas mais raro era a intensidade com que me olharam quando passei. Sorri-lhe e disse boa noite, ela levantou um dedo e chamou-me.... queria saber as horas... eram, mais ou menos, 5 horas da manhã. Ela agradeceu com o seu sorriso sem fazer qualquer esforço, o que me deixou quase perplexo... àquela hora, num local daqueles, aquele sorriso teve um brilho impressionante. E sim era isso mesmo, era aquele sorriso, sereno e calmo que me fascinou. Parecia não pertencer àquele corpo, nem àquele tempo... era um sorriso de quem aceitava o que a vida lhe dava, serenamente, com uma luz tão intensa que eu poderia ficar ali horas admirando-o.
Perguntei-lhe o nome e respondeu-me que se chamava Ana. Disse-lhe que Ana era também o nome da minha filha, que era ainda uma bébé... disse-me então, sempre com aquele sorriso lindo, que "um dia já fui uma bébé..." e riu muito discretamente... " há muito muito tempo.... tenho agora 97 anos... agora aguardo outro nascer, uma outra viagem...".
Disse isto continuando a sorrir.
Fiquei sem saber o que dizer. Perturbou-me de algum modo as suas tão verdadeiras palavras.
Despedi-me e fui-me embora.... ela lá continuou... a aguardar pela sua viagem... serenamente, com aqueles olhos e sorriso que revelavam uma lucidez inquietante, uma coragem e força descomunais.
Nalgum canto do Universo esta senhora existe ainda, quem sabe se acarinhada como se fosse novamente uma bébé... com o mesmo sorriso... com o mesmo olhar...

O vôo secreto


Uma fotografia talvez seja o equivalente a uma canção na óptica dum surdo-mudo... a pauta dos sonhos não cabe numa folha de papel, mas ocupa muito pouco espaço num coração que dorme no olhar do pássaro que voa dentro de nós.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Salto no Tempo


Não me quero hoje aqui, neste lugar, nesta hora e nesta vida... no entanto sei que temos de continuar...
Um apelo no voo daquela gaivota surge no meu espaço mental como uma mensagem, talvez seja eu a desejar isso mesmo.
As palavras que o vento me conta fazem-me sonhar, o voo das aves lembram-me um Tempo que já não existe... lembram-me um Tempo de sonho em que, eu próprio, voava...
A carruagem que nos leva teima em não nos ouvir, teima em nos deixar surdos em relação a outros como nós...
Olho para trás, a gaivota que esteve perto de mim olha-me e lança-se num voo como que a convidar-me a acompanhá-la.... e eu vou...

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Ex-torturas



Estruturas a toda volta asfixiam-me,
como se me manobrassem,
tal qual fosse eu uma marioneta,
como se um grua gigante se estendesse por todo o espaço onde gasto as solas dos meus sapatos,
puxando os cordelinhos a todos os meus movimentos,
com sacudidelas grotescas mas cirúrgicas,
onde eu estive hoje seguiu-me sempre uma sombra ameaçadora...
nunca consigo distinguir a sombra dum prédio da grua mãe que me sentou nesta cadeira a escrever estas palavras
um puxão suave
e eu teclo
t-e-c-l-o
letra a letra
até formar as palavras
bizarramente irreais no monitor do meu computador...
estas palavras que leio agora são estranhamente ambíguas
são reais e irreais...
podia apagá-las todas
ou pelo menos as últimas...
não faço a mínima ideia de como continuar este texto
sei que terminará com a expressão-trocadilho que dá nome a este post
"ex-torturas", variação-delírio fonético de "estruturas"...
(pausa para reler)
a grua mãe continua a sacudir os cordelinhos
c-o-r-d-e-l-i-n-h-o-s
e as palavras continuam a ter uma natureza relativamente precária
se as escrevesse numa folha de papel talvez pudesse amarrotá-la e deitar para a caixa dos papéis,
e quem sabe alguém a descobrisse um dia numa linha de reciclagem de papel e exumasse este instante,
mas se eu decidir apagar estas linhas do computador
elas perder-se-ão para todo o sempre
este momento desfar-se-à em fumo na chama viva da minha memória
do meu "estar vivo aqui e agora"

(pausa para pensar - continuo sem saber como saltar para a palavra final deste texto que tem princípio e um fim, mas se perdeu perigosamente pelo labirinto do meio)

Uma grua gigante brinca comigo
como se eu fosse um boneco nas mãos do Mestre dos Marionetas
e esse Mestre das Marionetas sou eu próprio
só que não conheço o argumento da minha vida
posso apenas extrapolar, sonhar, recordar...
Estruturas a toda a volta asfixiam-me,
gostava de estar num monte tão alto onde o céu aberto me convencesse de que não há fios presos aos membros
e eu pudesse dançar uma dança maluca
uma dança da liberdade
onde se me pudesse ver sem ter nenhum espelho por perto
ver-me, mas ver-me mesmo
e onde as estruturas fossem ex-torturas.

terça-feira, janeiro 02, 2007

As pequenas coisas estão em harmonia com tudo o que nos rodeia... até as folhas caídas de uma árvore prometem mais do que parecem...

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Quando o telefone toca



Há músicas que me tocam mais do que o meu gira discos as toca a elas... melodias e palavras que que me enchem a alma.

Mas há algumas canções em que a voz soa como um toque de telefone singular... como que pedindo que eu atenda nalgum lugar escondido dentro de mim...

- Alô?

domingo, dezembro 31, 2006

Onde O Mar E A Terra Se Encontram



Marco encontro contigo naquele lugar onde o mar e a terra se encontram... onde os nossos sonhos se tocaram, onde tu e eu nos olhámos e, olhos nos olhos, dissémos a palavra que nos uniria para sempre...
A gaivota que vejo hoje escreve a nossa estória.
Habitei os teus olhos, pensei que lá viveria eternamente...
Mas que posso eu dizer hoje?
Olho o horizonte que um dia habitei contigo, e, é lá ao longe que te quero encontrar um dia...

Somos espectadores de um tempo... de um sonho...

Já não quero falar disso, nada mais há a dizer...

Apenas preciso ver-te.

O voo daquela gaivota escreve a minha mensagem... e eu sei que a sabes ler.

Espero por ti... tu sabes...

Viagem ao centro do Eu



Eu escolhi partir.

Decidi partir em direcção ao Eu.

Se nunca me encontrei aqui e agora com certeza que este não é o meu lugar.

Se quisesse partir para o centro do mundo necessitaria dum veículo com uma broca bem maior do que aquelas que escavam os tuneis do metro, mas para partir em direcção Eu que meio de transporte tomar?

De carro não. Estou farto de andar de carro de um lado para o outro e não é por isso que sei quem sou.

Talvez um avião... não perdi a conta às vezes que me disseram que eu era um cabeça no ar? Mas um avião é difícil de pilotar... não tenho tenho tempo de aprender a voar. Não há tempo a perder. Quero encontrar-me e já!

Bicicleta era uma ideia... Quem aprende a andar de bicicleta nunca mais esquece. Mas cansei-me a andar em duas rodas na adolescência e foi sem dúvida a altura em que menos soube sobre mim próprio... De bicleta também não vou.

Talvez haja um combóio para o Eu... Mas se não conheço o meu destino o que dizer depois ao revisor quando vier cobrar o bilhete? "Quero ir à minha procura." Ele cobra-me a taxa máxima e quando me encontrar não vou ter um tostão para pagar um copo a mim próprio, o que será extremamente embaraçoso... Pois, de combóio também não!

Talvez pudesse ir a pé... mas isso parece-me muito cansativo e provavelmente nunca mais lá chegava.

Podia tentar aprender andar a cavalo ou pedir um burro emprestado... Só que depois tinha de voltar para o devolver. Era uma grande chatice chegar ao Eu e ter de voltar logo a correr... Não, também não vou nem de cavalo nem de burro!

Só se for de barco... Podia partir num veleiro de vela fluorescente com a estrela polar como guia... O vento parece-me mais fiável do que a tripulação fantasma dos meus medos... Talvez embarque já naquele que se afasta rumo ao mar negro das minhas esperanças e expectativas. Baptizá-lo-ei com o meu nome e ficarei a vê-lo afastar-se por entre a vertigem da ondulação...

Parece-me a escolha mais acertada!

E a viajar daqui, de onde me aceno e sorrio com votos de boa viagem, nem sequer chegarei a enjoar!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Afirmação de solidão



Eu disse "Nem mesmo o frio da madrugada consegue ser mais gelado do que um fio telefónico."

Tu disseste "Os telemóveis não têm fios."

Retorqui "Na realidade nada nos liga... nada a não ser o mesmo desejo de escapar à solidão."

E tu carregaste no botão Off depois duma pausa em que eu gostaria de carregar no botão Pause do comando de televisão no dia em que transmita a curta metragem adaptada da história real de duas pessoas que nunca mais tornarão a encontrar-se.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Por detrás de nós mesmos


Há muitas discussões sobre as razões da aparente sinceridade com que falamos a desconhecidos. No entanto esses desconhecidos têm de possuir determinadas características. É-nos mais fácil falar sobre nós mesmos, sobre os familiares mais próximos, da pessoa que amamos ou amámos a alguém que nunca vimos. Melhor ainda se esse desconhecido for simplesmente um nick, alguém que seja aparentemente "não real", que não possua olhar, que não tenha boca mas que... tecle...

Do que receamos afinal? De nós mesmos?
Será que simplesmente somos nós próprios que nos impedimos de fazer o que nós próprios realmente desejamos fazer?
Do que realmente temos medo? Porque fugimos e nos refugiamos nós por detrás de nós mesmos?
Uma coisa é certa.... receamos algo...

Somos como anjos aprisionados... deram-nos asas mas não sabemos o que fazer com elas...

O que acontece a uma ave que pode voar e não voa? Há só uma resposta.... morre!

terça-feira, dezembro 26, 2006

Guia



O amor é a linha de luz que ilumina o caminho através dessa caverna tenebrosa que é o medo que temos de nós próprios.

Há um ponto azul cheio de vida no Universo... é o que temos, é a nossa casa... foi-nos concedido lá habitar... mas nada nos pertence.... absolutamente nada...

domingo, dezembro 24, 2006



São os nossos dias que parecem iguais, não os dias que a Natureza nos oferece.

sábado, dezembro 23, 2006

Time is running out



Esta noite sonhei-me visitante numa casa desconhecida. Subia uma escadaria de madeira, quando, inesperadamente, vislumbrei uma foto pendurada na parede ao fim do último lance de degraus. Tratava-se do retrato dum pacifico fim de tarde, pouco depois do sol se ter despedido deste lado do mundo. A beleza do local assombrou-me. Fiquei preso àquele momento escondido algures no meio da casa misteriosa que era a minha mente. Logo percebi que em breves instantes aquelas últimas résteas de luz se apagariam como a iluminação pública no final do natal... Não me conformei com a fatalidade de ver um tão belo cenário prematuramente entregue à escuridão da noite. Corri até ao patamar, engolindo os últimos degraus com a impaciência das minhas pernas e, apoiando as mãos no beiral, mergulhei de cabeça na fotografia. Estiquei o pescoço para além do horizonte e em breve via já um pouco da rodela de luz celeste tentando escapulir-se para o outro lado do mundo. Projectei todo o corpo para a frente num impulso temerário e logo experimentei a insólita visão dum por do sol ao contrário. Deixei um sorriso desenhar-se-me no rosto à medida que o sol era ecuperado pela paisagem... até sentir no rosto o calor dourado do ocaso renovado.

E deste modo aprendi a voar.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Um Segundo Natal



Era uma vez o último minuto do último dia de um certo Outono. No quadragésimo sétimo segundo desse último minuto do último dia de Outono, desprendeu-se inocentemente uma folha da sua árvore mãe. Não houve choros nem tristezas nessa despedida, pois tanto a folhinha como a árvore sabiam que era assim que o mundo funcionava há muitas e muitas luas. A folha partiu e rodopiou num passo de dança que a deveria ter depositado no chão. Soaram então as badaladas do primeiro minuto do primeiro dia de Inverno... E toda a gente sabe que as folhas só podem cair durante o Outono. Assim sendo a nossa folhinha foi impedida de tocar a erva fofa. A Polícia das 4 estações ordenou ao vento que a detivesse numa teia de aranha providencialmente teada num cartaz montado por aquele animal estranho de duas pernas que tinha o estranho hábito de destruir tudo o que amava. A folhinha nem podia acreditar! Como iria ela agora cumprir o seu papel na grande engrenagem universal, se nunca conseguisse saltar para o chão? Mas que grande problema! A folha não tardou em contratar um competente advogado para resolver a situação, mas este disse-lhe logo que seria certamente um processo longo e burocrático. E assim se deixou ficar tristemente a folhinha, à espera que as entidades competentes analisassem o seu caso. Felizmente que neste caso a situação se resolveu naturalmente, não foi preciso esperar pela Primavera, pelo Verão e pelo Outono... onde então sim teriam de deixar a nossa folhinha cair legitamente na altura certa. Dois pares de dias depois da detenção da nossa inocente amiga, chegaram dois daqueles animais estranhos com duas pernas e começaram a desmanchar o cartaz. Parece que o cartaz era alusivo a uma festa chamada Natal, que acabara nessa mesma madrugada. Assim sendo o cartaz já não era necessário e a nossa folhinha pode anichar-se confortavelmente no chão por entre o lixo deitado fora pelos tais animais de duas patas!!!

Um dia quisera eu ser Deus

Farei o meu Universo a minha mão cheia de grãos de areia que apanhei naquela praia deserta.
À noite, ao luar, irei espalhá-los para que a Luz que a lua liberta os toque um a um, tal como o meu mundo é tocado pela Luz do sol e das estrelas.
Cuidarei deles e farei habitar cada grão de areia com uma alma, à minha imagem.
Serei o Deus destes pequenos mundos que hei-de criar e dar Vida.
Eu serei cada grão de areia, eu serei todos aqueles grãos de areia que libertarei um dia. A minha alma estará repartida por todos eles... eu sou eles e eles serão eu próprio.
Eu serei o bem e o mal, a alegria e a tristeza, a paz e a guerra, a Luz e a escuridão, a noite e o dia, a morte e a vida... mas ao ser o seu Deus, serei um Universo de memórias e esperanças vãs, de crenças e descrenças, serei os lamentos das mulheres que pedem alimentos para os seus filhos, a verdade transformada em mentira... a vida que rouba outra vida...

Eu sei que o meu Universo, por quem hei-de repartir a minha alma, que farei existir e que darei parte da minha Vida, se desmoronará.

Um dia estarei mais sózinho que nunca e muito mais pobre...

Porque um dia... um dia quisera eu ser Deus.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Ao Adorador Da Árvore


"Não importa o amanhã, importa hoje estares aqui a partilhar este Tempo.
O teu e o meu mundo estão aqui neste instante. O amanhã não existe para nós, é o agora, o hoje que nos importa.

Nos meus ramos eu seguraria o teu coração como se de um fruto meu se tratasse.
No meu mundo silencioso escuto as estórias que a lua me conta, as mágoas de homens fortes e invencíveis, o canto dos pássaros, o passar das estações, o lamento das florestas em chamas, a morte em nome da verdade...
Acredita que sinto como tu, que me olhas neste instante, nesta noite, neste lugar, neste Tempo e nesta hora...

Se somos iguais na Vida, se partilhamos TUDO, se vivemos aqui e agora... tenho um pedido a fazer-te...

Dá-me um abraço..."

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