
Há momentos inesquecíveis que, como já referi aqui, nos marcam pela simplicidade e ao mesmo tempo pela grandiosidade do momento ou acontecimento... ou simplesmente seja eu que me deixe deslumbrar com isso...
Uma noite, já bem pela madrugada dentro, caminhava pelo corredor do hospital onde se amotoavam macas com doentes que, a muito custo, tentavam descansar apesar do barulho de vozes e do "entra e sai" constante de quem aí trabalha.
Reparei numa senhora bem idosa que olhava para os soros que tinha pendurados no suporte perto da sua maca com um sorriso sereno. Não sei a razão de ter reparado nela, mas certamente algo me despertou a atenção, quase tenho a certeza de que eram os olhos grandes que tinha, raro em pessoas idosas, mas mais raro era a intensidade com que me olharam quando passei. Sorri-lhe e disse boa noite, ela levantou um dedo e chamou-me.... queria saber as horas... eram, mais ou menos, 5 horas da manhã. Ela agradeceu com o seu sorriso sem fazer qualquer esforço, o que me deixou quase perplexo... àquela hora, num local daqueles, aquele sorriso teve um brilho impressionante. E sim era isso mesmo, era aquele sorriso, sereno e calmo que me fascinou. Parecia não pertencer àquele corpo, nem àquele tempo... era um sorriso de quem aceitava o que a vida lhe dava, serenamente, com uma luz tão intensa que eu poderia ficar ali horas admirando-o.
Perguntei-lhe o nome e respondeu-me que se chamava Ana. Disse-lhe que Ana era também o nome da minha filha, que era ainda uma bébé... disse-me então, sempre com aquele sorriso lindo, que "um dia já fui uma bébé..." e riu muito discretamente... " há muito muito tempo.... tenho agora 97 anos... agora aguardo outro nascer, uma outra viagem...".
Disse isto continuando a sorrir.
Fiquei sem saber o que dizer. Perturbou-me de algum modo as suas tão verdadeiras palavras.
Despedi-me e fui-me embora.... ela lá continuou... a aguardar pela sua viagem... serenamente, com aqueles olhos e sorriso que revelavam uma lucidez inquietante, uma coragem e força descomunais.
Nalgum canto do Universo esta senhora existe ainda, quem sabe se acarinhada como se fosse novamente uma bébé... com o mesmo sorriso... com o mesmo olhar...