Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

quarta-feira, março 07, 2007

O velho moinho de maré


Ontem fiz aquela pequena viagem de barco que me levou, em tempos, para uma realidade onde sómente tu e eu existíamos.
O velho moinho de maré foi sempre a testemunha dos sorrisos e cumplicidade que teimávamos esconder um do outro. Eu sentia-me seguro quando o olhava da janela escurecida do barco. Algo me dizia que aquele velho moinho guardava um segredo, que eu nunca desvendaria, nem queria desvendar. O segredo bem poderia ser o nosso futuro ou o nosso passado.
Hoje olhei demoradamente o velho moinho enquanto o barco passava. E lá estava, imponente, mágico, guardião de sonhos e esperanças. Olhava-me calmo e sereno enquanto eu, mais uma vez, me sentia seguro.
De repente o teu sorriso voltou a brilhar como antigamente dentro de mim e uma saudade imensa invadiu-me. Quis voltar para trás para te rever, no entanto, minutos antes, tinha estado contigo e não percebi o teu olhar ainda de menina a brilhar como dantes.
Despedi-me do velho moinho levantando a mão na sua direcção e pareceu-me vislumbrar um sorriso...
Que imaginação esta a minha!

Bom


Foi bom estar aqui um dia ...ainda assim, não sei se será correcto dar esta morada como sinónimo da felicidade.
As memórias vivem da traição da saudade ...mas a verdade é que me sinto bem aqui.
Sei que é bom voltar aqui, como se regressado a um dos locais sagrados do meu Ser.
Porque será que nunca te reencontrei em nenhuma das minhas romarias?
Em que tempo viverás tu agora?
Pode ser que vivas hoje num futuro recheado de brilho e luminosidade, zombando do meu apego a um negro e escuro passado...
Talvez nem sequer tenhas sido tu a roubar-me o presente ...talvez tenha sido eu a esquecê-lo num banco de jardim ou quem sabe se não me caíu da carteira numa travessa esquecida da cidade interior.
De cada vez que levanto os olhos tudo o que alcanço é que o deserto é uma miragem que vejo a partir do oásis do meu comodismo.

terça-feira, março 06, 2007

A Casa Da Aprendizagem





Por vezes damos um salto no modo como entendemos as coisas, as pessoas ou mesmo o mundo onde habitamos.
Um dia o meu avô contou-me uma pequena história (sabe-se lá onde ele a foi encontrar, pode muito bem ter sido o avô dele a contar-lha e ele contou-nos a nós...).
Na altura confesso (tinha por volta de 7 anos de idade) não entendi a mensagem.
É uma pequena história de dois meninos que nunca tinham visto o seu próprio reflexo.
Um dia a mãe pediu-lhes para não se aproximarem de um poço, ainda não tinham idade...
Os dois meninos eram muito diferentes em temperamento, embora fossem da mesma idade cada um tinha o seu próprio feitio e modo de ver as coisas...
Um dia decidiram chegar perto do poço e olhar lá para baixo... que segredo guardaria?
O primeiro a espreitar foi o menino de temperamento mais sisudo... olhou para baixo e assustou-se, lá em baixo estava um ser horrível a olhar para ele com uns olhos que parecia que o queria devorar... ele tinha visto um ser muito mau e certamente muito perigoso... tentou bater-lhe com um pau, mas o monstro lá em baixo pegou num pau ainda maior para lhe bater. Fugiu dali para fora... nunca mais se aproximaria daquele lugar...
O outro menino, embora apreensivo com o relato do seu amigo, resolveu ele próprio verificar como era aquele monstro, debruçou-se a medo e espreitou devagar... lá em baixo viu um animal, ou algo parecido a espreitar devagar também... recuou ligeiramente e o ser do poço também recuou... resolveu acenar-lhe e dizer adeus.... o ser do poço também lhe acenou e disse-lhe adeus. O menino sorriu e ficou espantado por aquele ser, tão simpático, também lhe ter sorrido. Afinal o seu amigo estava enganado mas que simpático aquele animal, ou ser, que habitava aquele poço tão escuro e feio... de certeza de que lá voltaria para brincar com ele... tinha feito um amigo!!

O modo como vemos o mundo resume-se numa pequena história que de tão simples impressiona... e que bela mensagem (pelo menos para mim foi) nos tentou passar.

Apesar de ter passado tantos anos ainda me lembro das histórias que o meu avô desencantava, não sei onde, e nos contava nas tardes de verão quando o calor se tornava insuportável para brincar lá fora.

Dentro de dentro


Na outra noite sonhei que me dizias que conhecias o meu segredo.

E, apesar de sentir o coração assustado, eu não tive medo.

Sabia que estava dentro de um sonho e que tu sabias o meu segredo apenas dentro do sonho.

Ah!, suprema ironia de saber que tudo é uma ilusão.

Talvez um dia eu te conte a verdade e então te possa confidenciar porque é que o sol mente e as palavras brilham.

segunda-feira, março 05, 2007



"As tuas marcas podem dizer muito, mas não consigo ler a tua mensagem...
A tua côr revela marcas do tempo, de um Tempo em que exististe sem saber que em cada dia caminhavas para uma viagem sem retorno, onde só as tuas recordações continuavam presas ao tronco que abandonaste.
Sei que depois de deixar este local só eu saberei onde te encontravas, em que local preciso da tua existência te olhei... e ainda te recordo, ainda recordo aquele outono... mas sei que não mais te irei ver..."

domingo, março 04, 2007

A Comédia Divina


Gosto de acreditar que a chave para a casa de Deus não é um pedaço de metal que nos introduza numa fria nave de pedra onde alguém com má cara nos interpela com um tom imperativo "É proibido fotografar!"

Algo me diz que a chave para a casa de Deus é uma verdade camuflada dentro de nós, um não sei quê informe e escorregadio, que poderia accionar essa engrenagem mágica que é um segredo acerca nós próprios.

Na minha opinião ninguém pode graffitar a verdadeira fechadura da casa de Deus.

sábado, março 03, 2007

Believe Or Not Believe?




" Entre o acreditar e o não acreditar habitam as nossas certezas... mas essas são só nossas... pelo menos isso..."

sexta-feira, março 02, 2007

O último barco


Procurei bilhete para o último barco com partida para a Felicidade.

Comprei-o ou não comprei?

Talvez tenha feito a reserva e depois esquecido de o levantar.

Este imperdoável esquecimento deixou-me do lado de lá da saudade.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Promete-me O Amanhã



Num caminho que cruzámos,
entrelaçam-se destinos,
alguns sós,
outros com promessas de partilha...
Seguramos assim a nossa existência,
com esperanças e sonhos...
Olhando no espelho pedimos a nós mesmos,
"promete-me o amanhã..."

A Fuga do Céu

Notícia de última hora: o Céu fugiu!

Através de engenhosas artimanhas o Céu iludiu os seus captores e laboriosamente furou a grelha que impedia a sua livre circulação.

Que fazer agoraque toda a esperança abandonou esta terra sem Céu?

Uma generosa gratificação aguarda todo aquele que forneça informações sobre o paradeiro do Céu.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O Vendedor de Utopias


Lembro-me bem dele... Ele contava o seu dia de trás para a frente e da frente para trás. Tudo o que lhe acontecia, desde o mais insignificante dos episódios até ao mais crucial dos acontecimentos, ganhava um tom exoticamente épico e apaixonado na sua voz.

Ele não alugava a atenção das pessoas, ele mudava-se pra dentro da cabeça do ouvinte - pelo menos enquanto houvesse uma história para contar.

Na realidade, e por muito absurdo que isto lhe soasse se alguém o confrontasse com o facto, ele exaltava e glorificava eventos impossíveis...

Aquele amigo, reencontrado inesperadamente um passo à sua frente na fila dos correios, voltara a desaparecer como se nunca tivesse existido tão logo desviara o olhar...

Aquele restaurante onde comera a melhor mousse de chocolate do universo desintegra-se tão logo lhe voltara as costas...

A fila de trânsito que o atrasara para o nosso encontro tornara-se impossível logo que os carros retomaram a marcha...

No fim de contas ele vivia num mundo que deixava de existir mal abria a boca...

Não lhe valia de nada martirizar-se a pensar no que poderia ter dito na situação X depois de tudo passado e encerrado... "As coisas dentro da nossa memória parecem sempre bastante mais claras e lógicas, suscitam-nos aquela resposta de mestre que ficou por dar no calor do momento que nos toldou o raciocínio." Desabafou certa vez.

Talvez o frustasse saber que não podia contar-me o futuro, pois essa seria a prova acabada de que ele existia realmente e que tudo à sua volta era muito mais do que uma simples ilusão.

Mas são estas as miudezas e as glórias dum contador de histórias...

Em certa medida eu concordo com ele - esta é a vida ideal para contar histórias, mas sobretudo para as viver.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

O Portal Do Tempo



Por vezes um sinal é o bastante,
para seguir na estrada do Portal do Tempo,
ao encontro de nós mesmos...

Um descanso


Por vezes vale a pena sentarmo-nos num banco em diagonal com o Tempo - é uma maneira de ficar entalados na porta entre o passado e o presente.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A Catedral

Todos os dias renascemos com a promessa de que um novo dia nos permita viver os sonhos mais secretos que habitam no mais recôndito desfiladeiro da nossa alma...
É pena que nos falte, na maior parte do Tempo, coragem para o vivermos...

Resta-nos então entrar na Catedral criada para nós e pedir aos Deuses uma nova chance...

Mais rápido que a própria sombra

Mais rápido que a própria sombra corri atrás de mim, cortando mato por entre as armadilhas ocultas na luz do dia.

Nunca me consegui alcançar... tenho más pernas para correr, mas uma rara astúcia para me despistar.

Cansado e faminto encostei-me à velha ponte dos tempos... fechei os olhos à noite que se avizinhava, escolhendo em seu lugar a noite dos meus pensamentos.

No fim de contas todos nós conhecemos um desfiladeiro secreto onde alguém nos conseguiu encurralar muito antes do nascer do sol.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Sem fuga


Não adianta trocar de meio de transporte quando o perseguidor que pretendemos despistar somos nós próprios.


A Nave Dos Tempos


Aguardo a chegada de um Tempo,
onde possa ouvir a melodia do Cosmos...

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Demanda


Para quê viajar até onde os olhos não alcançam, se estamos todos de passagem?

Qual a utilidade de experimentar o exotismo de outras culturas, se as vemos sempre através dos binóculos invertidos dos nossos preconceitos?

De que serve conhecer o mundo de lés a lés, se não nos conhecemos a nós próprios?

Estou convencido de que a verdadeira viagem nos levaria simplesmente até ao outro lado do espelho.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

No Caminho Do Conhecimento


Vou ao teu encontro, para trás deixei a minha marca no imenso Tempo que habita um Universo que me fez existir. No caminho que se estende à minha frente sigo com o meu olhar interior a Luz que me convida à presença do conhecimento, da verdade que tanto procurei incessantemente durante a minha existência.
Ontem desejaria estar sentado, lado a lado, com a morte para dar maior importância àquilo que presenciei durante a minha existência.
Eu sei que não disse "amo-te", olhos nos olhos, quando o deveria dizer, eu sei que não te abracei quando o deveria ter feito e nem gritei do alto da montanha como um dia sonhei que o faria... porque simplesmente pensei que um dia o poderia fazer... porque simplesmente estava demasiado apressado em viver a minha pequena eternidade finita.
Não fui suficientemente louco...
Hoje caminho num lugar de brancura imaculada, hoje compreendo que qualquer dia seria um excelente dia para morrer. Porque o mais importante é ter feito o que deveria ter feito... porque eu deveria ter gritado do alto daquela montanha, ter dito "amo-te" e de, um dia, te ter abraçado...

Lágrimas do tempo


As lágrimas do tempo são uma chuva que cai para dentro de mim, levando tudo no dilúvio que transforma o meu coração na arca de Noé dum mundo virgem de tristeza e infelicidade.

sábado, fevereiro 17, 2007

O Primeiro Dia


" Há uma batalha mais antiga que nem os Homens algum dia irão conhecer. Há um Tempo em que a Humanidade ainda era sonhada... o Tempo do Sonho como dizem os aborígenes...
Então a Luz inundou o Mundo, os céus se abriram e por momentos A Energia pulsante no longínquo Universo indicou um planeta e o escolheu para Paraíso... a semente da Vida estava lançada... por uns instantes tudo pareceu suspenso... este seria o Primeiro dia...
A batalha estava ganha...
A Terra seria tocada pelo dom da Vida... "

Os reflexos bóiam ao sabor de que marés?

Se o barco bóia ao sabor da marés que embalam a água como um berço onde dorme a verdade primordial das coisas, então onde poderá bóiar o reflexo do barco?

Será que um reflexo repousa sobre a realidade das coisas?

Será que o meu reflexo me observa do mesmo modo como eu me miro e estudo na aberrante distorção das vagas que me fazem navegar para além da imaginação?

Que figura sinistra e asustadora não devo ser eu para o meu reflexo!...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A intangível perfeição dos dias imperfeitos


Ah... a intangível perfeição dos dias imperfeitos!

Bem posso resmungar e barafustar, mas o certo é que este uivo do vento e este quentinho no coração partilham-me de igual modo...

Resta-me tomar um cházinho para fazer as pazes com o vento... talvez assim ele nunca deixe de me sonhar.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Cada passo que damos no nosso caminho esconde uma incerteza de que faz parte a nossa existência. Seguir em frente implica uma escolha e todos os dias é preciso escolher... todos os dias é preciso ir além, todos os dias a única certeza é a de que tudo é, certamente, incerto.
Mas é preciso seguir em frente... a caminho da incerteza.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

1 só céu


Todos gostamos da palavra "um".

Os U2 cantavam que há apenas um amor, um sangue e uma vida.

O Sting complementava que um mundo chegava para todos nós.

E quantas pessoas não ficaram já com essas melodias e palavras aprisionadas dentro da cabeça?

Quantas pessoas não ouviram estas canções na rádio e não passaram o dia a cantarolá-las?

Mas a verdade é que todas essas pessoas queriam uma única coisa: ser o número 1.

Todos queriam ser o número um da compaixão mas, sobretudo, ser o número um na lista dos donos da verdade, derrotando e humilhando todo o resto da humanidade pelo caminho.

E quantos campeões da boa vontade pode haver debaixo dum único céu? Ninguém se contenta em ser o segundo, pois este, dizem, é o primeiro dos últimos.

Espero que os U2 e o Sting ao menos tenham conseguido ser número um do top de vendas, já que não conseguiram fazer deste lugar um só mundo.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

No Caminho Da Eternidade


Recentemente o Mundo inteiro ficou tocado por uma história surpreendente... a descoberta de duas ossadas, pertencentes a duas pessoas, que morreram há muito tempo... abraçadas para sempre.
Li sobre esta história e a sua descoberta... de facto há coisas tão simples que parecem pertencer a contos de fadas ou a algum romance imaginário, escrito por alguém super dotado.
Num jornal inglês lia-se que os arqueólogos e as pessoas, que com eles procediam às escavações, quando se depararam com tal cenário ficaram sem dizer nada durante um longo período de tempo, houve até quem chorasse.
A mensagem daquelas duas pessoas era mais que evidente.
Um testemunho de um ser humano que quis amar um outro ser humano para sempre...
Há no Mundo algo maior que os Homens, algo para além da nossa compreensão.
Uma prova de amor para a humanidade foi o que estas duas pessoas deixaram e, em plena era materialista, fomos abalados por uma imagem tão forte que nos deixa a pensar...
No fundo de nós mesmos desejamos amar assim, para todo o sempre...

Pretérito perfeito


As memórias são um olhar para fora que nos traz para dentro.

Lembro-me do dia em que fomos tomar banho à velha pedreira abandonada. Que idade tinhamos exactamente? Não consigo recordar... Acho que éramos ainda novos demais para acreditar que um dia seríamos adultos.

Gostávamos de ficar a chapinhar na água que se acumulara nos buracos donde fora extraída a pedra. Acho que nessa tarde faltáramos às aulas para usufruir daquele nosso pequeno paraíso.
Também não recordo duma forma muito clara a forma como começou a discussão... Sei que nos desentendemos. Do nada surgiu um atrito que nos fez enrugar a testa e levantar a voz. Tu pegaste na tua roupa e afastaste-te de mim a passos largos.

Eu fiquei a ver-te desaparecer atrás duma árvore e exclamei em voz alta:

- Estúpida!

Não tenho dúvidas de que estava zangadíssimo. Não falámos durante uns dias, depois voltou tudo ao normal. Também não tenho nenhuma ideia da reconciliação. Depois o ano lectivo acabou e acho que nunca mais nos tornámos a ver... Se não estou em erro o teu pai foi trabalhar para fora.

É tudo muito vago e indefinido... pergunto-me se terás existido mesmo ou se não terás sido apenas mais um produto da minha imaginação.

Todas as memórias são perfeitas no sentido em que com o tempo ganham sentido e nos dão a ilusão de que a nossa vida tem sentido... não te parece?

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

A Profecia

Lá longe num mundo que é Lei,
há-de um dia o Homem morrer,
não porque o seu Tempo chegou,
mas por a Máquina o escolher.

domingo, fevereiro 11, 2007

Hangar da Luz


Sinto o meu velho corpo desgastado por todas as missões empreendidas no mundo dos homens...

Vejo-me ao espelho e sinto-me um pouco como um velho avião de guerra em que a tripulação gravou poemas, desenhos e símbolos na fuselagem, transformando-o num gigantestica mensagem de desespero e resignação prestes a descolar para mais um voo para além das linhas inimigas...

Só que os ditos poemas, desenhos e símbolos não estão gravados a ferro em brasa no meu corpo, mas sim tatuados em fumo na minha alma.

Cansam-me os homens... talvez fosse já o tempo de recolher ao hangar e transformar-me num museu à memória da Humanidade.

Mas amanhã há um novo dia... e porque não uma nova aventura pelo mundo dos homens?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

À velocidade do pensamento



O vendedor explicava-me como utilizar o aparelho maravilha por forma a manter a casa sempre imaculadamente limpa.

No fim da explicação perguntou-me:

- Tem alguma dúvida a que queira que eu responda?

Pensei durante um instante e disparei de chofre:

- Donde é que vêm os pensamentos?

- Como?... - Sobressaltou-se o homem.

- Donde é que vêm os pensamentos? - Repeti. E, depois de pensar meio instante, acrescentei - E para onde é que vão?

- Não sei se compreendo... - Abriu o vendedor muito os olhos.

- É simples. - Clarifiquei. - Todos os dias somos assaltados por milhões de pensamentos. Pensamos no que vestir, o que vestir, o que comer, de quem gostamos, de quem não gostamos, nque aconteceu há dez anos, no que vai acontecer daqui a dez anos, o que fazer agora, o que fazer a seguir... Pois bem, a minha questão é donde vêm essa multidão de pensamentos?

O vendedor olhava perplexo para mim.

- Nunca se fez esta pergunta? - Insisti.

- Bem... não... - Confessou encavacado o vendedor.

- Eu não sei donde vêm, mas acho que há uma roda gigante a girar dentro de nós.

O homem olhava-me gravemente sem soltar uma palavra.

- Uma roda que... - Continuei. - Como lhe hei-de explicar? - Uma roda... uma roda... uma engrenagem a girar no vazio. Uma engrenagem em constante movimento, mas nós só conseguimos ver a roda de frente... tipo como se olhássemos para uma tela de cinema... só percebemos que está em movimento porque os pensamentos começam a surgir tenuemente na ponta esquerda e... VRUM!!!, desaparecem pela ponta direita. Não se consegue contabilizar-lhe a duração, o peso ou qualquer outra característica ou qualidade. O que lhe parece.

O vendedor coçava intrigado o cocuruto da cabeça.

- Claro que há outras hipóteses. - Prossegui entusiasmado anets dele ter tempo de responder. - Também já pensei num daqueles monitores de hospital que se vêm nos filmes. Está a ver? - Interroguei. - Daqueles que servem para ver os sinais vitais. Há uma linha que é o nada e de repente PIP!, lá vem um pensamento e outro e outro e outro. PIP!!! PIP!!! PIP!!! Nessa perspectiva os pensamentos são o que nos separa da morte... são o oposto de estar morto, sendo a morte o estado que precedeu o nosso nascimento e aquilo que nos espera quando o corpo colapsar.

Hesitei um segundo e embalei para uma outra ideia:

- E agora que penso nisso, observo que há ainda outra analogia que podemos fazer: os pensamentos são quase como as linhas na folha acabadina de retirar dum sismógrafo após um terramoto. Os pensamentos são como um tremor de terra dentro de nós.

Expliquei triunfante.

- Só que - continuei refreando o meu entusiasmo -, evidentemente, nada disto responde à minha questão inicial: donde é que vêm e para onde é que vão os pensamentos. Tanto a roda-tela-de-cinema, como o monitor dos pensamentos-vida como os pensmaentos-folha-de-papel-do-sismógrafo são imagens que enquadram e descrevem os pensamentos mas não me dizem nada sobre a sua origem e verdadeira natureza.

Seguiu-se um silêncio comprometido até que o vendedor arriscou perguntar:

- Mas sempre compra o aparelhozinho ou não?


quinta-feira, fevereiro 08, 2007

As Pedras Também Vivem


Lembro-me de um Tempo em que até as pedras viviam...
Em que o meu acordar era Vida,
qual sopro divino...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Nave carril

...e chegou o dia da partida.

"Levas-me contigo?" Perguntaras incontáveis vezes.

"Claro." Respondera sempre eu, sem hesitação, sem sombra de dúvida, sossegando-te com a minha mão sobre a tua.

Mas a verdade é que no dia da partida não te chamei...

Cobardia? Realismo? Medo?

Não o sei dizer.

O facto é que a terra avançou mar adentro e eu nem sequer olhei para onde ficava a tua casa... nem um último olhar guardei para a despedida.

A distância entre nós aumentou virtiginosamente embora o número de passos entre a minha nave e a tua casa se mantivesse insolitamente inalterada.

Eu era o viajante e a viagem, eu era o veículo e o caminho...

Não me recriminarias tu um dia por eu te ter trazido na minha jornada?

Não me recriminarias tu um dia por eu te ter deixado para trás?

Não me recrimanaria eu um dia por não te saber amar?

terça-feira, fevereiro 06, 2007

A Barca dos Sonhos


Há muito, muito Tempo ele prometeu a si mesmo ser um marinheiro que embarcaria, um dia, numa viagem alucinante rumo ao seu próprio destino.
Nada o deterá, a sua alma já se encontra algures onde a realidade já deixou de existir e, cada dia que passa, mesmo que seja só em sonhos, ele reencontra aquele menino que, olhos nos olhos, um dia prometeu a si mesmo embarcar na sua barca dos sonhos... esteja onde estiver, venha o que vier e haja o que houver ele viajará toda a noite rumo à Luz de si próprio...
Porque o seuTempo chegou!
E um dia será dono do seu próprio destino!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O mundo não ouve


O mundo não ouve... Por mais que eu grite e esperneie o eco das minhas palavras morre no ruído de fundo do mundo.

O mundo não ouve... o mundo não quer perceber que o melhor som do mundo é a minha voz...

Se eu fosse o rei do mundo todos viveriam muito melhor... eu pelo menos não tenho dúvidas de que viveria muito melhor...

Venha uma revolução que me coloque no trono do mundo!

Mas o que faria eu então? Encostava a uma parede diante dum pelotão de fuzilamento todos os que os que não me ouvissem? Talvez esse fosse um momento tão bom como qualquer outro para aprender também eu a ouvir...
Talvez este seja um momento tão bom como qualquer outro para começar também eu a ouvir!...

O mundo somos nós... só é pena sermos surdos e mudos para tudo o que não ecoe os nossos pensamentos.

domingo, fevereiro 04, 2007

O Começo De Uma Qualquer História


Naquele imenso estuário veio-me à ideia de que a tua história bem poderia ter sido a minha. Que num qualquer lugar do Tempo eu estava onde tu estás e tu existias onde eu estou. Eu olhava para ti sem saber que, num qualquer ponto do Universo, a minha história começava no momento em que tu nasceste. Porque a tua era a minha história.
No horizonte que contemplei, imaginei as histórias que começavam, aquelas que acabavam e aquelas em que eu poderia ter habitado.

sábado, fevereiro 03, 2007

Lentidão


Ah! A inigualável sensação de estar sentado nos dias com se dum divã se tratassem... olhar para os pensamentos e ver pássaros a cruzar o infinito.

Que maravilha é beber o mar com os olhos como se dum refresco se tratasse.

A tarde passeia dentro de mim num jardim à beira mar... Se existe um paraíso ele esconde-se dentro de nós.

Haverá maior felicidade do que preguiçar no período de tempo fronteiriço entre a Alegria e a Tristeza?

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Diário de um louco

Percorri a rua onde o frio da pedra cinzenta me acompanhou, incessante e contundente. O espaço onde me movi deixava de existir assim que, passo a passo, me deslocava e saía daquele lugar.
Apressadamente saí dali.
Não eram gentes quem se cruzava comigo, eram demónios de capa negra que voavam entre paredes de pedra e que nelas habitavam.
Fechei os olhos para que o olhar devorador de quem me fitava não me cegasse.

Corri para dentro de um pátio onde alguém me sorriu... aquele lugar confundia-se com aquela presença brilhante e apaziguadora. Ao seu redor uma auréola ténue e azulada fazia-me sentir em casa.
Aquela presença apontou-me para um canto onde jazia uma folha caída em cima de outra folha.
Uns segundos depois aquela cor quente encheu aquele lugar e eu acordei junto ao mar num lugar de um imenso azul...

Alguém me chamou... mais um doente deu entrada nas urgências... e eu fui trabalhar...

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Longe de Ti


Porque será que é precisamente quando estás tão perto que o meu bafo bate em ti devolvendo o calor à minha pele que te sinto mais longe?

Na tua ausência vejo-te Aqui com os olhos da saudade.

Vejo-Te mesmo, através do olho do meu amor.

Não haverá um barco que eu possa tomar para subir o rio da Vida rumo à cidade que tu És?

Não poderei eu ainda um dia deslumbrar-me com a visão da chegada junto ao porto que atraca em Ti, desembarcar na luz da tua Presença e subir as estreitas e labirínticas ruas que levam à casa onde vive a tua Verdade Absoluta?

Em que língua me poderia responder uma Ilusão?

terça-feira, janeiro 30, 2007

A Torre Sem Nome


O lugar do Tempo surge nos meus sonhos,
lado a lado com imagens desesperadas,
de árvores que procuram abrigo,
na velha Torre sem nome.

Saberão as árvores dizer,
se na roda da Vida,
valerá procurar abrigo,
mesmo sabendo que não se o tem?

A dor ar



A dor ar...

A dor é o ar que inspiro e expiro.

A dor é o tudo à volta e o nada em redor.

A dor respira-me e pensa para com os seus botões que eu sou um tipo de poluição que urge combater.

A dor decide que chegou a hora de me proibir em todos os recintos fechados e em todos os espaços abertos.

A dor aumenta-me o preço e calcula montantes para as multas a aplicar caso alguma das suas irmãs tente sacar-me de dentro dum maço de melancolia.

Ai de quem seja doravante apanhado a fumar a minha dor!!!

sexta-feira, janeiro 26, 2007



Sinto-me suspenso pela Luz que me envolve e à qual pertenço,
faço parte daquele lado de lá,
onde escuto,
outras formas de existência.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Debaixo dum céu impossível



A minha sombra é a prova científica da existência do centro de gravidade da luz do sol, mas a verdadeira Luz fica para lá do contorno das pessoas e das coisas... fica onde há uma completa ausência de escuridão ...e aí as sombras não têm lugar.

Era uma viagem a empreender, largar tudo e partir em demanda desse lugar onde nada vive ou morre aos meus pés... mas, desafortunadamente, a minha pele é muito mais do que uma casa cheia de Nada.


Serei comedido em relação a esta questão - contentar-me-ei com o facto do meu corpo ser um ponteiro do relógio que dá as horas à Eternidade.

terça-feira, janeiro 23, 2007

No Dia Em Que A Natureza Chorar

Sempre gostei da andar à chuva. Hoje foi um dia desses...
No entanto senti que algo não estava bem, ou era eu, ou algo à minha volta...
Havia alguma mensagem algures naquele Parque, pensei eu.
Imaginação minha certamente... mas aquela estátua parecia ter lágrimas, seria essa a mensagem? Que coincidência.... a gota estava exactamente no lugar e Tempo certos. Eu também estava no lugar certo para testemunhar e fotografar o momento...

domingo, janeiro 21, 2007

Porta com porta


Acordo todos os dias como se num sonho estivesse. Uns dias o sonho é bom noutros é mau - por vezes é mesmo um pesadelo.

O despertador também sabe tocar dentro dum sonho, sabiam?

Quando saio para o trabalho nunca sei qual foi a porta por que saí... Saí pela porta da realidade ou pela porta do sonho? É difícil dizer, elas ficam uma ao lado da outra, como o reflexo produzido pelo espelho duma realidade paralela onde o limite é a imaginação.

Eu sei que não é desculpa, mas a verdade é que eu sou um pouco distraído. Já me aconteceu sair pela porta da realidade e deixar a chave na porta... À noite quando cheguei a casa procurei a chave em todos os bolsos, acabando por encontrá-la na fechadura. Tive sorte, ninguém deu por ela... mas entrei em casa auto recriminando-me ferozmente.

É usual deixar a chave na porta dos sonhos, faz sempre falta uma pitada extra de ilusão nessa grande ilusão que é a vida. Também já me aconteceu trazê-la por engano no bolso da minha mente... foi um dia muito estranho e bizarro: é insólito ver os sonhos dos outros quando temos os nossos próprios sonhos fechados em casa.

Nunca mais!

Mas o que ia ter piada era era um dia esquecer-me da chave na porta dos sonhos quando estivesse mergulhado num sono profundo e fecharem-me dentro do sonho.

E talvez tenha sido isso mesmo que aconteceu... que provas tenho eu do contrário?

Como saimos dum sonho se não sabemos que estamos a sonhar?

Hmmm... Preciso de alguém que me acorde.

sábado, janeiro 20, 2007

Vermelho frio


Ilusões numa cidade fria,
resgatam a alma para os confins dos sentidos.
Revejo-me e não me conheço neste lugar,
onde as metáforas da realidade,
me levam para lugares sem destino.

Além, onde a catedral se ergue,
a noite é rasgada pela sua côr,
ao luar de um vermelho frio,
sinto o que ninguém sonha,
procurando a sombra de uma flôr.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

As duas luas


Tenho duas luas na minha sala. Há duas luas cheias a adornar o céu do meu mundo. As marés dos 70% de água por que é constituido o meu corpo vão e vêm ao sabor dum acende/apaga nos meus dedos. A astrologia do signo da minha vida resume-se ao acender e apagar do interruptor. Tenho o destino na ponta dos meus dedos.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Histórias Na Floresta Mágica


Acordo e vejo-te,
estás a caminho de um lugar,
onde irás perguntar a ti mesmo,
porque razão a tua sombra não te acompanha...

Lá, onde não existem sombras, é onde nascem os sonhos,
é onde nasceu o Universo,
é onde tu e eu pertencemos...

Escuta o silêncio, o teu silêncio...

Dá-me a mão... eu guiar-te-ei...

Na boca de mil demónios dum buraco negro esconde-se sempre um segredo de Luz.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Gaivotas em terra


"Gaivotas em terra, tempestade no mar." Diz o provérbio.

Mas quando a tempestade for no nosso coração qual será o sinal?

Quem são as gaivotas e onde é a terra quando se anuncia uma tempestade no coração?

Hmm...

Palavras desconexas na boca, tempestade no coração?...

"Hoje o dia está muito bonito, só faltava passar aqui um jacto supersónico para ensurdecer o grito a dizer AMO-TE que está entalado na minha garganta!" Diria com os meus olhos se a minha imaginação não fosse refém das palavras mal engendradas pela minha mente.

Ah!, a magia das palavras grávidas de imagens!

domingo, janeiro 14, 2007

Escrito nas folhas


Nesta manhã serena e secreta, tento ler nas folhas qual o meu destino, talvez um dia saberei a mensagem que os deuses guardam para mim.
Procuro não lhes tocar para que o segredo continue como foi enviado.
A brisa da manhã deixa cair algumas "letras" desta mensagem que ao anoitecer me foram enviadas.
É sómente a Natureza a dar-me a ajuda que pedi.
De repente tudo faz sentido, mais uma lição aprendida... quando um momento nos é dado, quer seja pelo destino ou por outra razão qualquer, há que ter consciência de que esse momento nunca se repetirá. Nunca mais aquelas gotas, que habitavam na folha antes da brisa as ter levado voltarão a estar naquele lugar, naquela hora, naquele Tempo.
Da próxima vez, e sempre que puder, direi o que possívelmente nunca mais poderei dizer, porque nada se repete... porque as minhas palavras poderão perder-se para sempre, como aquelas gotas...

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