Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

segunda-feira, março 03, 2008

Trilogia Piramido-Urbanística

ToxiCidade
As flores
da minha cidade
são o medo dos campos.



Help


que
não podes
mudar o mundo
muda-te a ti próprio.


Sun City

O sol
não nasce para
todos se o céu tem o mesmo
tamanho que tu e eu e é suplantado
em altura pelos mais banais prédios da cidade.

domingo, março 02, 2008

Alucinações


Na manhã daquele dia olhou-se ao espelho questionando-se quem estava no outro lado...

Sentia-se o Sol e a Lua... o dia e a noite... tudo isso e nada disso...

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Suspeita


Talvez seja pretensiosismo da minha parte, mas não acredito que viajar no tempo seja um dever a que tenho direito...

A minha agência de viagens bombardeia-me com ofertas ao preço da chuva para zarpar em direcção aos períodos históricos mais apetecíveis.

Mas o que posso pedir de melhor do que o dia de hoje, se todos os meus contemporâneos vagueiam, neste rigoroso momento, nalguma zona indeterminada do passado e do futuro?

Prefiro ser um homem só no mundo do que um mundo só no meio dos homens...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

"E ele sorria mais uma vez..."


" Hoje vieram-lhe à ideia lembranças de outros Tempos... ou talvez fosse sómente aquela imagem que o transportou para aquele preciso momento, àquele derradeiro momento em que um sim ou um não fariam toda a diferença.
Ao fechar os olhos, para relembrar aquele dia, sentiu-se do outro lado... de um lado que não mais voltaria e de onde nunca se despediu...
Ele sabia que que as despedidas eram aquilo que mais temia, sempre o soubera, desde muito cedo... mas sempre o conseguira disfarçar... porque fazemos sempre de conta que aquilo que não gostamos não existe, verdade?... havia mesmo quem pensasse que para ele tudo aquilo era fácil « - Que despegado que ele é....!» diziam as pessoas que nunca o conheceram... e ele sorria... mais uma vez ... todos estavam enganados..."

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A Genealogia do Tempo

Eu aspirava o ar puro da Rua do Horizonte, perdendo o meu olhar algures entre a terra e o mar, quando aquele estranho personagem me abordou com ar de vago mistério, tomou-me o braço e, apontando a casa do outro lado da varanda para o vale, sussurrou-me ao ouvido:

- Já reparou que nesta casa, uma vulgaríssima casa , uma casa como outra qualquer, a esta hora do dia se lê o futuro e se revelam todos os segredos do passado? É só preciso saber desvendar, é só preciso saber decifrar... Concorda?

Olhei-o como que estremunhado e respondi:

- Com corda ou com cordão interessa é agarrar o presente... o hoje... o agora...

O homem largou-me o braço abruptamente e afastou-se espreitando-me por cima do ombro com mal disfarçado despeito... Resmungou qualquer coisa entredentes... Não percebi se dizia "A corda" ou "Acorda"...

domingo, fevereiro 17, 2008

Ribeiro Lindo Rebelo


As minhas pegadas serão as tuas pegadas quando eu coloco cuidadosamente os meus pés onde os teus pés fizeram o seu caminho?

A tua voz será a minha voz sempre que dizemos "Amo-te..." à desgarrada?

O rio será o rio ou apenas o veículo por onde passa o barquito onde depositamos um único e singular olhar?

- Amo-te.

- Eu amo-te mais...

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

E Se O Meu Tempo Não Fosse O Teu Tempo?


E se o meu Tempo não fosse o teu Tempo?
Se o voo do pássaro, como lhe chamavas, riscasse o céu só para mim?
E se na cidade branca só eu me perdesse?
Se o meu Tempo não fosse o teu...
nunca os meus olhos imaginariam os teus olhos...
nunca os meus lábios tocariam os teus lábios...
Se o meu Tempo não fosse o teu,
Seria o teu sol diferente do meu?
Seria a tua poesia um Universo que um dia eu descobriria?
Mas o meu Tempo é o teu Tempo...
A tua Alma é o espelho da minha Alma,
Porque eu habito o teu Tempo... e tu o meu...

domingo, fevereiro 03, 2008

Dejá vu

- Tive agora uma sensação tão estranha... - Disse ela olhando em volta. - Poderia jurar que já estive aqui... Eu já estive neste lugar com alguém, embora seja a primeira vez que piso este chão.

- E esse alguém não era eu? - Interrogou ele.

- Não. - Franziu ela o sobrolho.

- Talvez essa sensação não viesse do passado... - Retomou ele a palavra quebrando um curto e vagamente desconfortável período de silêncio . - Quem sabe não sonhaste há muitos anos com este dia em que tu e eu viessemos aqui... muito antes de nos conhecermos... muito antes de de acreditares que um dia estaríamos aqui com a paisagem no coração e o outro no olhar...

- Achas que sim? - Hesitou ela.

- Não sei... - Sorriu ele. - Mas às vezes parece mesmo que as premonições nada mais são do que recordações dum passado remoto e que os dejá vu são apenas e simplesmente memórias do futuro.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

A Memória das Coisas


Não sei se é obra do vento ou se é o mecanismo da memória das coisas em acção: as ervas que dançam na frente do meu caminho fazem uma vénia perante o sopro do vento ou adivinham os passos que eu ainda não dei?

E se a memória fosse feita não só do passado mas também do futuro?

Pergunto-me muitas vezes se os dejá vu já aconteceram ou se ainda vão acontecer...

Quando me sento no regaço do Tempo nunca sei se eu sou o mestre ou se sou o aprendiz...

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Em Busca da Chave Secreta


"Abriu os olhos naquele pequeno mundo onde tudo lhe parecia estranho... não se lembrava da razão da sua viagem, nem tão pouco do que o levara a este reino onde tudo parecia tão... intocável...
O seu mestre falara-lhe em tempos de um lugar onde habitavam as secretas lembranças de uma Humanidade sonhada... o reino de uma qualquer entidade, de onde a Vida partira, para um dia voltar a nascer.
À sua volta escutava a melodia do silêncio, o brilhar das gotas de água da chuva faziam-lhe pensar que estava entre as estrelas além no Cosmos.
Seria este o lugar mágico onde a Verdade lhe seria desvendada? Seria este o Paraíso que em tempos ouviu dizer?
Lembrava-se do seu mestre e das suas palavras... « Todas as respostas estão em ti próprio, só tens de procurar na Natureza a chave secreta... »
Levantou-se e continuou o seu caminho, embora não vislumbrasse qualquer estrada, parecia-lhe, de cada vez que dava um passo, que as árvores e plantas se desviavam para que pudesse passar. Estaria ele a sonhar?
De qualquer maneira o sol fazia-o lembrar que estava uma bela manhã de uma qualquer primavera, num qualquer lugar e num Tempo desconhecidos para ele..."

sábado, janeiro 12, 2008

O Tempo e o Vento


Os pensamentos do homem sem cabeça são transparentes.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O Leilão


Apressa-te!
Não te atrases!
Está prestes a arrancar o Leilão de Futuros.

Lá compras o que queres, mas nunca o que desejas.


Preferes ser Rei,
Poeta
ou Guerreiro?

Saberás sequer a diferença
entre o ceptro,
a caneta
e a espada?


Apressa-te!
Não te atrases!
Está prestes a arrancar o Leilão de Futuros.

Lá compras o que queres, mas nunca o que desejas.


Quem dá mais, quem dá mais?
A moeda da felicidade não se paga a si própria.
A licitação base é o medo.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três...

Vendida ao cavalheiro sem passado!

terça-feira, janeiro 01, 2008

.../...


Por vezes penso que esta viagem não foi feita para mim, que tudo não passa de um sonho, de um conto contado por alguém a um menino e onde tu habitavas a minha história sem que eu te conhecesse sequer...

Naquele dia, nesse conto, vivido por nós, adivinhámos um futuro que, de tão longínquo, pensámos nunca alcançar.

Éramos os heróis da nossa história, de uma história sem fim, onde a eternidade ocupava o nosso espaço e onde tudo era possível...

Fui eu que adivinhei o nosso futuro naquele dia.... quando te perguntei... " e se não der certo?".

Esquecemos a resposta mas o Tempo não...

Habitaremos até à eternidade juntos...

Até que o Tempo queira...

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Maria Faria



Ninguém nasce com vocação
para carcereiro,
ninguém nasce com vocação
de prisioneiro.

Mas não é por isso menos incrível
encontar quem ache preferível
envergar as listas do prisioneiro
no lugar da farda do carcereiro.

Escolher um caminho é abrir uma porta,
deixar entrar um convidado mistério
e sentá-lo na cadeira mais torta
do nosso secreto Império.

E quem o escolheria ainda assim?

Maria Faria.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

A Fuga


" Ele encontrava-se no meio de um lugar onde teria de fazer uma escolha... a viagem a caminho da Luz ou voltar para trás, para os mesmos lugares onde as gélida manhãs e as enebriantes noites frias o aguardavam, dia após dia... hora após hora...
A sua própria sombra já o incomodava, a própria pele sentia-a como se não fosse dele... procurava uma fuga para a sua alma, corpo e mente...
Ao longe a luz azulada da cidade fazia um convite a quem a olhasse...
- Vem até mim... aqui esquecerás as tuas escolhas e sonhos..."

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Noites Para Além do Portal


" - A Porta abriu-se perante eles. Naquela câmara ao longe, bem distante deles, algo os fitava do alto friamente.
Não lhes pareceu humano, mas também não lhes pareceu não humano.
A Porta fechou-se.
O mais velho do grupo dirigindo-se à figura enigmática e ignóbil, perguntou:
- Quem sois?
Um eco fez-se ouvir naquela enorme sala de todos os lados, dir-se-ia que não era sua voz mas sim que dezenas de vozes vinham de um qualquer compartimento interior àquele lugar.
- Sou a Esfinge que se esconde na alma dos Homens, sou o lado submerso do iceberg da mente humana, o lado que a Humanidade tenta esconder... sou o pedaço de pão que sobra e que não é distribuído... sou o reflexo daquilo que a Humanidade não quer ser mas que nalgum lado tem de existir... e existe aqui neste lugar...
Todo o grupo pareceu incrédulo... seria todo o Mal da Humanidade culpa de uma Esfinge.... de uma Coisa? Ou esta seria a nossa consciência, a nossa própria consciência daquilo que não queremos ser, daquilo que nos envergonhamos de ser?
Tudo aquilo parecia muito estranho..."

sábado, dezembro 15, 2007

O Mensageiro


Eu não sei quando os meus amigos precisam de mim...
Eu não sei se os meus amigos sabem que eu preciso deles...
Do mesmo modo, eu não sei quando vou precisar dos meus amigos,
Nem tão pouco sei ler no Tempo as mensagens que me são dadas conhecer,
Quando um amigo precisa de outro.
Uma coisa sei... a amizade é algo que une caminhos, mundos e sonhos,
E se o meu caminho um dia se ligou ao de alguém,
Saberei sempre, haja o que houver, lá ir ter...
Mesmo na mais escura noite haverá um mensageiro para me guiar,
Os olhos de uma qualquer ave serão os meus...
E...
Até Sempre!

sábado, dezembro 08, 2007

Biografia dos Deuses



É nesta e noutras alturas do ano que é possível assistir ao insólito fenómeno da migração das árvores.

Ao invés de buscarem paragens mais quentes, onde aguardassem prazenteiramente pela primavera, as árvores aproximam-se de nós e aquecem-nos o coração.

A biografia dos deuses lê-a a rugosidade da casca duma árvore quando lá passas com a mão...

Os segredos da vida de todos nós vão-se revelando no preencher dos espaços em branco...

Se a palavra FIM estiver escrita a caneta de luz sobre uma página em branco não é possível saber se a história já terminou ou não.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Num Imenso Azul Existes


"Sei que um dia partirás... mas... sabes... no dia em que queiras voltar estarei aqui, perto do mar, tocando o imenso azul, onde o céu e a Terra são um só como eu e tu.
Sabes onde me encontraste, sabes onde eu pertenço, sabes a quem me dou, sabes que tens o teu lugar comigo além onde escuto a melodia do mar e da Terra.
E naquele vale onde habito caminhas lado a lado comigo, não que algum dia me tenhas acompanhado, mas porque em sonhos te sonhei junto a mim...
E os ventos nessa tarde, enquanto te abraçava, ouviram um pensamento secreto que um dia imaginei dizer-te...
- Eu amar-te-ei para sempre..."

sábado, dezembro 01, 2007

Love story


Será que todos temos uma história de vida personalizada e intransmíssivel, como os passes dos transportes públicos, identificados com a nossa fotografia e nome, ou todos compramos um anónimo bilhete de ida e volta, válido apenas até ao exalar do derradeiro suspiro?

Não é por nada, mas se por acaso estiver correcta esta última hipótese, todos teremos de viver o mesmo cardápio de experiências, sensações e emoções.

Não posso crer que o filme de amor que vi ontem na televisão descreva exactamente aquilo que sinto por ti, aquilo que sentes por mim, aquilo que acontece cada vez que estamos juntos... mas acaso não me emocionou como se por artes mágicos não fossemos nós aquele casal do outro lado do ecran?

Viveremos nós todos a mesma história de amor ou haverá tantas histórias de amor quanto o número das pessoas que se amam?

Não sei responder... mas quero dizer-te uma coisa...

Sempre que estiveres triste lembra que te amo e que cada segundo é a argamassa que prende os tijolos ao muro das horas que teimam em separar-nos... porém o melhor que essa barreira conseguirá será adiar uma e outra vez a inevitabilidade do nosso reencontro.

sexta-feira, novembro 30, 2007

A Linha do Destino


Entre o existir,

e o não existir,

há uma linha a ser cumprida.

Ou se cumpre,

ou não se cumpre,

é sempre o destino que a dita...

domingo, novembro 25, 2007

Astronomia para principiantes


Entre salvar o mundo e salvar-me a mim próprio escolho salvar o sonho
...entre o ontem e o hoje opto, sem pensar duas vezes, pelo amanhã.
Sempre gostei da cirúrgica precisão das grandes engrenagens
e a grande máquina cósmica merece todo o meu respeito e confiança.

Para provar o que digo proponho-me cartografar a superfície da lua.
Agora não sei se faça um mapa lunar
ou um mapa lunático.

Nos dias que correm é mais fácil ser louco
do que chegar a ser um cientista...

Mas não será a loucura também uma forma de ciência?

terça-feira, novembro 20, 2007

Labirinto


" Perdido num labirinto onde nem as palavras lhe pareciam reais, cansado da envolvente e enebriante névoa que parecia tomar-lhe a mente dia após dia... buscava em cada imagem a fuga de um outro eu...
Parecia-lhe poder vislumbrar a côr do silêncio, a magia que encerra cada palavra... o lugar onde cada poema nasce e morre. "

quinta-feira, novembro 15, 2007

Na encruzilhada

Eu não sei ver o futuro, eu não sei ler as palmas das mãos... Ainda assim, ainda que o pudesse fazer, creio que o meu pessimismo natural não me impediria de olhar para o amanhã com despeitada desconfiança.

Por isso não te posso prometer que o nosso amor ascenda a alturas tão elevadas quanto as que atingem as asas dum pássaro...

A vertigem é difícil de suportar quando os nossos pés nunca se elevaram do chão... e é mais difícil voar quando o desfiladeiro de onde nos queremos lançar nos fica do lado de dentro dos olhos.

Para te sossegar não posso fazer melhor do que dar-te a mão e convidar-te a caminhar comigo... dizer-te que o medo é bom ...desde que não nos deixemos dominar por ele.

Eu sou a tua asa esquerda e tu és a minha asa direita, é minha a tua asa direita e tua a minha asa esquerda.

Porém, não existe pássaro algum que jamais volte poisar a terra mãe... um dia, mais tarde ou mais cedo, lá teremos de aterrar desajeitadamente nos escombros dum qualquer castelo em ruínas...

Ah! Se pudessemos manter o fôlego num abrasador e eterno beijo que devorasse e digerisse o mundo à nossa volta! Então tudo seria tão diferente!...


O teu corpo é o relógio mágico do tempo presente... é na tua pele que salto do passado para o futuro... os teus lábios são os ponteiros que misturam o som distante do mundo com o arfar da minha respiração...

É na magia da tua presença que me sinto mais vivo do que aquilo que alguma vez me atrevi a imaginar...

Tu és o habitat natural onde vive o meu verdadeiro Eu...

Houve uma noite, há muitos anos atrás, em que sonhei com uma esfinge misteriosa da mulher da minha vida, mas o despertador tocou e deixou-me sem saber se a minha love story tinha ou não um happy end... desculpa se não consigo evitar estar constantemente a espreitar por cima do meu ombro à procura do momento em que o despertador comece a tocar...

Mas, curiosamente, na noite em que me esqueci de ligar o despertador, acordei mais cedo do que aquilo que pretendia...

domingo, novembro 11, 2007

A Guardiã


" - Além habita a guardiã dos teus sonhos,

aquela que um dia te guardou da noite fria da madrugada,

quando o vazio tomou conta da tua alma... "

quinta-feira, novembro 08, 2007

O Aviador sem Brevet



Não me lembro da última vez que poisei os pés no chão.

Já não falo há tanto tempo que receio esquecer o som das palavras.

Nem sei entender se o tédio é tédio ou simplesmente a ausência das distrações do mundo.

Por outro lado, aprendi que as horas mortas são contadas por um cronómetro que corre no sentido contrário e me leva ao antes do antes do princípio.

Se me entrevistasse a mim próprio, que perguntas me colocaria de modo a explicar ao mundo a minha proeza?

A que perguntas deveria eu responder para conseguir dizer que eu sou os olhos dum cego, as pernas dum paralítico, os ouvidos e a boca dum surdo-mudo no projecto impossível duma volta ao mundo em 80 palavras?

Na realidade, as perguntas que me faça não interessam minimamente.

Por esta razão não poderia deixar de dar uma mesma e única resposta a todas as hipotéticas perguntas:

- Ao voo rasante dos dias nada sobrevive para além do medo e do amor.

quarta-feira, novembro 07, 2007

[ O Canto dos Mares ]



A melodia da imensidão dos Mares convida-nos a entrar num Universo onde tudo é possível.
Os Mares cantam as melodias da nossa infância, relatam as histórias que os nossos avós nos contaram e que nós ouvíamos atentamente, abrem as portas do nosso castelo mais íntimo onde um imenso tesouro espera para ser tocado... desvendam-nos o dia em que o nosso próprio reflexo brilha nos olhos de alguém... e onde caminhar na água se revela, não como um milagre, mas como uma certeza.

domingo, novembro 04, 2007

Entreposto



Posso ver a luz da madrugada dum novo dia a espreitar por detrás da montanha secreta da minha alma...

Noutros tempos passaria este dia a tentar corrigir os erros do passado, pois amanhã poderia sempre corrigir os erros que cometesse hoje a tentar corrigir os do passado... mas contigo aprendi que é menos importante corrigir os erros do passado do que evitar os erros do presente...

Estás a tornar-te a minha fraqueza predilecta... o meu calcanhar de Aquiles de eleição...

Eu já tinha aprendido a viver sem medo, a não esperar nada, nem de bom nem de mau... mas então apareceste tu... e, quando chegaste, viajava um medo bom no brilho do teu olhar, sentado lado a lado com um medo mau, que se vem apeando no beijo de despedida da tua sombra à minha sombra...

Cada vez que me despeço de ti sinto um aperto no coração como se esta tivesse sido a última vez que nos vissemos...

Sempre que a tua mão escorrega da minha, agarro-te com o meu olhar num sublime e derradeiro esforço de não te perder ainda mais esta vez...

Porém, cada vez que dobras a esquina do tempo, sobra-me a vontade de desmascarar o mito de que comigo as coisas boas até acontecem, embora aconteçam por muito pouco tempo...

segunda-feira, outubro 29, 2007

A Aniquilação do Mundo


" - Formas mutantes do lado secreto da Lua enchem as noites há muito Tempo, desde que o primeiro Homem decidiu ser dono do Mundo... "

quarta-feira, outubro 24, 2007

A Cúpula Mágica

Eu sou o passageiro involuntário... o convidado inesperado... o hóspede na minha própria casa...

Por mais que o tente, não consigo deixar de olhar desconfiadamente para o amanhã, tal qual um jornalista preguiçoso que de véspera escreve uma notícia na cama, fiado num palpite, deduzindo a realidade dos factos que se avizinham com cega confiança nos seus falíveis instintos... Que embaraço olhar para a manchete do dia seguinte depois de fracassadas todas as minhas melhores intenções...

Ah!, mundo cruel que não se compadece da minha imaginação!...

sexta-feira, outubro 19, 2007

Uma pequena viagem interior...


Depois da travessia do grande estuário onde conheceu e ouviu histórias de outros companheiros de viagem, pareceu-lhe ser tão igual aos demais, nos sentimentos, angustias, desesperos e desejos que seguiu o caminho sózinho apesar dos convites para estar acompanhado.
Havia algo que o impedia de prosseguir com alguém ao lado... algo que o fazia pensar ser diferente. Ou então o seu caminho era o de um solitário onde lhe cabia uma história ainda por contar num Tempo ainda por desvendar...
A verdade é que ainda tentava saber o seu lugar num mundo desconhecido para ele, onde até o voo do pássaro lhe parecia mágico...

segunda-feira, outubro 15, 2007

O Regresso Adiado


" Ele sabia que tinha lá o seu lugar, a voz do seu passado tinha-lhe dito que poderia regressar quando desejasse.
O dia desse regresso ainda vinha longe, ainda estava de partida, mal tinha começado a sua viagem, a sua missão... porque todos temos uma...
Habitava agora em dois mundos e dois Tempos, um Tempo passado e um Tempo futuro...
Voltou ao caminho.
À sua frente um imenso Mar iria separá-lo ainda mais do improvável regresso, tentou não pensar nisso concentrando-se no modo como conseguiria atravessar mais este obstáculo que se deparava diante dele.
Nada o conseguiria deter e aquele não era mais que um momento de aprendizagem como tantos outros que se tinham deparado.
Ao seu lado outros como ele esperavam pelo barco que os levaria para a outra margem, o lugar "mágico" onde estranhos homens faziam "milagres".
Entrou no barco e ao mesmo Tempo o sol deitou-se no horizonte... "

quarta-feira, outubro 10, 2007

Terra de Ninguém

Querem saber porque é que eu vendi a minha casa e comprei uma autocaravana? Não é segredo, não o escondo de ninguém. Espero até que a minha história vos possa ser de alguma utilidade.

Eu trabalho em três lugares diferentes. Não vou dizer os nomes, adiantarei apenas as distâncias a que ficavam da minha antiga casa: 21 kms, 30 kms e 50 kms. Estas eram as coordenadas mágicas duma pirâmide imaginária que tinha como coração (um hipotético centro geográfico) o meu lar, herança dos meus pais que viviam apenas já na minha memória. Muitos eram os dias em que tinha de percorrer os três vértices da pirâmide que me pagava as contas: estava de manhã a 50 kms, à tarde a 21 kms e de noite a 30 kms. No início não me incomodava muito este périplo ...recordo que me regojizava até por ter o que me impedisse de ter pensamentos menos felizes ao longo do dia. Porém, certa vez olhei-me ao espelho retrovisor do meu carro e apercebi-me de que já não tinha 20 anos... Ao entardecer quando regressava dos 30 kms surgia a inesperada dúvida se percorrera aquele mesmo caminho naquela manhã ou na manhã de ontem ou anteontem... Apossava-se de mim um intrigante sentido de desorientação e inquietação... Os dias deixaram de parecer compridos para serem sempre o mesmo dia... continua e initerruptamente...

A páginas tantas a minha casa não era mais do que um lugar aonde eu ia dormir. Quantas vezes não percorria eu os 30 kms apenas para regressar outros 30 kms poucas horas depois? Que sentido tinha perder meia hora para um lado e para o outro se podia beneficiar muito mais dessa hora se me deitasse imediatamente? Quantas noites praticamente não adormeci com as mãos sobre o volante e não acordei com um arrepio na espinha?

Não lamento o que fiz... não me arrependo de ter cortado as raízes que me prendiam ao meu passado pessoal e familiar: não sei se isto é a liberdade, mas os meus valores, os meus ideais, a minha bandeira e a minha história são hoje a sombra da árvore que me abriga...

segunda-feira, outubro 08, 2007

Uma história em silêncio


"Lembrou-se dos dias passados na sua casa, na casa onde nasceu... tudo agora lhe parecia tão distante mas ao mesmo Tempo tão perto.
Olhou para o horizonte e pareceu-lhe que não conseguiria alcançar o cume daquele monte onde duas pequenas árvores o aguardavam... seriam reais? Ou apenas realidades de um outro Tempo, do seu próprio Tempo?
A sua caminhada tinha de continuar, agora aquele lugar era a sua casa... e... apesar de tudo sabia que não estava só... algo ou alguém o acompanhava e disso estava certo...
Sentou-se numa pedra, demoradamente olhou de novo a planície que deixou atrás de si.
Por momentos sentiu-se abalado com imagens do seu passado... dentro dele o Mundo parecia sufocá-lo.
Percebeu então que este era o seu Caminho, não seria possível voltar atrás... alguém, um dia, ao ouvir o seu silêncio entenderia, porque o silêncio fala mais que a própria verdade.
Deitou-se na erva verdejante daquele prado e olhou o céu até adormecer... aquela era a sua casa disso estava certo agora...
As árvores curvaram-se protegendo-o da noite... ao mesmo tempo entraram no seu sonho desvendando-lhe uma outra forma de sentir... agora também lhe era concedido viajar no Tempo... e de novo sentir-se embalado, olhando um sorriso que lhe era familiar..."

quinta-feira, outubro 04, 2007

"Uma árvore não esquece..."


Naquele Tempo ele não sabia se aquelas árvores algum dia serviriam de sombra ao caminho de alguém. Simplesmente as plantou lado a lado e, por debaixo das pequenas árvores, ainda com troncos frágeis, imaginou alguém que se sentaria naqueles bancos de jardim, conversando...
De repente lembrou-se que tudo aquilo... daquele espaço... seria visitado por quem nunca o viu nem nunca saberia quem ele era?... por momentos sentiu algo estranho... estaria ele esquecido no Tempo? Perdido num labirinto de uma qualquer existência?
Fez o que tinha a fazer...
Pensou para si mesmo... " O Tempo me lembrará... aquelas árvores sabem quem sou, e, de cada vez que uma criança brincar debaixo de uma árvore, plantada por mim, o vento fará ouvir o meu nome, porque uma árvore não esquece..."

domingo, setembro 30, 2007

O Turista Acidental


Os pés não nos podem levar levar tão longe quanto o desejam os pensamentos.
Os caminhos nem sempre deixam pedras nos sapatos.
Os lugares servem-se das pessoas para viajarem a seu bel-prazer: a Itália perguntou-me hoje onde ficava o multibanco mais próximo, no outro dia a Inglaterra pediu-me para lhe tirar uma foto com a praia ao fundo.

Nem todas as histórias precisam de palavras para se escreverem - a arte é o suor da alma.

sábado, setembro 29, 2007

Onde o teu céu existe...


Ao longe todos temos um Deus secreto em quem confiamos as palavras da poesia mais secreta e íntima... que nos embala nos momentos em que procuramos uma melodia para nos esquecermos das imagens pérfidas que os dias teimam em mostrar, das palavras que receamos dizer, do mundo que parecemos ignorar, do abraço que fica por dar...
Tu não precisas de paraíso... o teu lugar, a tua casa, o teu quarto, a tua poesia, a tua cama e a tua música levam-te a esse céu... pela tua janela espreitas o teu Deus, secretamente... longe de todos os outros... mas lado a lado com os Deuses de todos nós... porque... o teu céu existe onde o meu céu existe...

terça-feira, setembro 25, 2007

Sementes de Eternidade

A minha, a tua, a nossa viagem não dura mais que um sopro de eternidade... igual à viagem de uma folha de plátano que um dia, por ter chegado o seu Tempo, se soltou na imensidão, guiada por uma gota de água da chuva que guarda um imenso Universo por descobrir, dará Vida a uma Terra sedenta e ávida que guarda as sementes de novas vidas, novos mundos, novos sonhos e onde o teu coração pulsará eternamente...

domingo, setembro 23, 2007

Décadas


Não tardará já muito para enviuve também do Tempo...

O Tempo foi o meu amigo, o meu confidente, o amante secreto aos braços do qual eu nunca pude fugir.

O Tempo usou-me, exactamente da mesma forma que eu o usei a ele também.

O Tempo usou-me para redigir o seu diário, escreveu-me em cada ruga, em cada cabelo branco, mas hoje, quando me olho no espelho, o que leio é a minha história passada, presente e futura.

Este corpo é somente um souvenir... um novo recuerdo de alguma coisa mais luminosa e absurda que não cabe em palavra alguma.

Estes cabelos brancos em pouco diferem do cacho de caracóis de bebé que os meus pais guardarm no álbum fotográfico da minha infância.

É dificil começar tudo de novo... sentimos o fogo dentro de nós.

Custa a acreditar que algo queime mais do que o sol, porém há algo mais quente e incandescente do que o núcleo solar... o seu nome é sabedoria... vem misturada com o sabor acre do fogo, enchendo-me duma sede que água alguma poderia saciar e secando-me de dentro para fora e de fora para o mundo, numa vertigem que voa no interior dos meus olhos.

É este o sabor da liberdade?

É isto que é ser livre?

O tempo zomba de mim, condensando em poucos segundos aquilo que demorou uma vida a escrever em mim... como se limitasse a poucas linhas o último volume da saga que redigiu com o meu nome.

Em certa medida não o deveria recriminar... Este é o fogo de artifício do final dos tempos... estes são os últimos segundos do último ano, da última década, do último século do milénio final.

Não haverá outro mundo como este.

Nenhum outro mundo será observado num misto de temor e respeito por estes velhos olhos...

Todavia...

Sem desculpas, sem medos, sem saudade, tudo volta ao seu lugar.

quinta-feira, setembro 20, 2007

O Tudo e o Nada


" Todos nos acotovelámos para ouvir, mais uma vez, aquele homem que tinha percorrido sabe-se lá que caminhos, com promessas e respostas para os nossos sonhos de crianças... desta vez ele respondeu a uma pergunta que todos nós já tínhamos feito a nós próprios... o que era o Tempo...?
Demoradamente o velho senhor esboçou um sorriso e respondeu calmamente...
- Tempo e Espaço são como uma rede que nos apanhou, mas as redes têm buracos. Encontra esse buraco e sai por ele... e encontrarás aquilo que os olhos não podem ver, que os ouvidos não podem ouvir, que a mão não pode tocar e o que nunca ocorreu ao teu espírito... reparem nas borboletas que brilham ao sol e vibram com as suas cores... que acontece quando as apanhamos e passamos com os nossos dedos nas suas asas? Libertam um pó e as asas, anteriormente brilhantes, perdem rápidamente aquele brilho e beleza...
A realidade pode estar para além do que aquilo que vemos... daquilo que sentimos... daquilo que vemos... o nada invísivel transforma a realidade sem esforço... "

sábado, setembro 15, 2007

Para Além da Verdade...


" Todos nós achámos estranho o que nos contou aquele velho homem, pareceu-nos incrível que tal história pudesse ser verdadeira... no entanto algo em nós pareceu despertar, como se uma chama que nos habitava desde sempre fosse agora o centro do mundo.
Voltámos para a velha cabana e olhámos o céu... algo nos dizia que haveria alguém, algures num futuro distante, que um dia poderia olhar estas mesmas estrelas, que pensasse como nós, que sentisse como nós...
À nossa volta o silêncio da selva pareceu escutar o nosso próprio silêncio.
Amanhã o sol nasceria e as trevas, como dizia o nosso ancião, teriam de recuar, mais um ciclo na roda da vida se cumpriria.
Os cânticos soaram de novo, alguém que estava doente ficaria depressa curado."

terça-feira, setembro 11, 2007

Fascination street


Com tristeza ele voltou as costas e atravessou pesaroso a rua.

Na memória bailavam as imagens agora impossíveis duma outra despedida.

A mulher que então ficara para trás e a mulher que agora ficava para trás olhavam-se desconfiadamente, estudando-se mutuamente dentro seu olhar.

Eram ilusões da sua mente, e ele bem o sabia, mas, ainda assim, continuava sem fazer a miníma ideia do que pensavam uma e outra.

A verdade era relativamente simples: uma possuia o elemento-maravilha e a outra não... uma era instantaneamente desejável fazendo disparar-lhe o coração a mil à hora e a outra deixava-o perfeitamente indiferente e, por mais que apreciasse a sua companhia, que apreciava sem margem para dúvida, sem o mais leve traço de emoção... e que bom seria se ele pudesse amar a mulher de hoje como amara incondicionalmente a mulher de outrora!...

Triste era que a mulher de outrora, de quando voltara as costas e se afastara a passos largos desse outro lugar, sentira por ele exactamente o mesmo que ele sentia neste preciso momento pela mulher de agora, caminhando rapidamente através daquela rua que parecia nunca mais terminar, enquanto os olhos dela se cravavam pelas suas costas como dois punhais de fogo.

Ele experimentava ao mesmo tempo o corte frio e dilacerante dos dois gumes da faca da rejeição... perfurava-lhe a pele debaixo da pele da pele a lâmina ainda afiada do dia já longinquo em que fora rejeitado e também a lâmina incandescente do ainda mal acabado instante em que rejeitara da mesma forma que fora rejeitado...

"A rejeição é um adeus a nós próprios na voz doutra pessoa." Pensou ele quando finalmente dobrou a esquina.

domingo, setembro 09, 2007

O Altar do Tempo



Antes de nos despedirmos, olhámos uma vez mais aquele lugar. Tudo parecia dizer-nos de que o nosso momento chegou, mesmo as palavras que não trocámos, soavam tão fortes que mal poderia olhar-te nos olhos...
Ambos sabíamos que era a última vez, mas não o dissémos, aproveitámos cada segundo, cada minuto como se fosse a última vez, como se aquele fosse o último dia das nossas vidas...
Cada pequena porção da tua pele foi sentida por mim como se fosse a primeira vez... gravei na minha memória o que foi tocar-te naquele dia.
O Sol e o Tempo pareceram estar atentos a nós... aquela tarde, como tu sabes, passou lentamente... e, paradoxalmente, deveria ter passado rápidamente...
Finalmente dissémos adeus, aquele lugar, o "Altar do Tempo" como lhe chamaste, foi a testemunha do adeus, de um sonho e de uma história que um dia hei-de lembrar...
Ambos olhámos para este lugar e cada um seguiu o seu caminho...

sexta-feira, setembro 07, 2007

Fora de horas


O Aprendiz de outrora descobrira inesperadamente o rosto do Mestre no reflexo do rio onde se debruçara para saciar a sede na quietude do bosque.

As longas barbas brancas talvez escondessem ainda a suavidade da pele do jovem impetuoso de outros dias menos esquecidos do que o dia de ontem e ainda assim não tão longinquos como o dia de amanhã.

Quem lhe ensinara mais?

O homem que lhe ensinara a sagrada arte e o secreto ofício que agora se incumbia de transmitir a outros mais jovens e inocentes, ou os olhos da mulher que amava ainda para além da morte?

Quem fora na verdade o Mestre mais precioso?

Desejou ardentemente encontrar esse mesmo olhar quando se voltasse para averiguar que estranho restolhar fora aquele logo atrás de si... porém o mais certo era ser apenas um dos seus protegidos ...ou na pior das hipóteses um dos soldados da horda inimiga prestes a desferir sobre si o golpe de misericórdia.

Fosse como fosse não poderia prolongar eternamente o prodígio daquele instante entre o último gole de água e o acto de se virar...

Às vezes acredito que o futuro está escrito nos teus olhos... Deve ser por isso que temo olhá-los bem fundo... como se esticasse os pés e espreitasse através duma janela onde o futuro, o passado e o presente se confundem e amalgamam como uma singular inominabilidade. Inquietantes cenários e enigmáticas situações envolvendo improváveis objectos parecem acontecer dentro deles... o impossível não parece tão irremediável durante o tempo que dura o teu olhar... É na inolvidável maravilha do teu olhar que o chumbo dos meus pensamento se metamorfoseia no ouro das asas dum pássaro que voa livre para além do Tempo. Nem que vivesse mil anos encontraria descrição mais apropriada do que esta para a alquimia da tua presença...

quinta-feira, setembro 06, 2007

O Regresso


Estavamos de regresso, em silêncio percorremos os imensos bosques que circundavam a torre.
Uma batalha, desta vez maior, muito maior do que aquela que alguma vez tinhamos presenciado, fora de novo ganha, mas não sem a perda do nosso guia, do mais antigo companheiro daquele grupo.
A derradeira oportunidade parecia estar agora nas mãos de uma Humanidade que se dizia dona de falsas verdades, ávida de enganos, falsas promessas e falsos profetas, em que tudo era possível, mas onde os sonhos dos Homens eram aprisionados e julgados até a alma lhes ser roubada... vegetando num qualquer limbo, entre uma falsa realidade e uma irrealidade verdadeira que lhes era negada à exaustão.
Todos sabiam, daqui para a frente, que mais árdua seria a luta... mas todos também sabiam que o Caminho certo era este, o velho Mago assim o dissera, mas nada nos tinha preparado para esta solidão, este vazio imenso...
Foi então, que vendo o desânimo dos companheiros, Nataniel se dirigiu a nós.
- Lembram-se da noite em que ouvimos passos? Pois então... não estamos sós... connosco existem muitos mais, a grande batalha será ganha, aguardemos por mais irmãos de luta, a Luz os encaminhará até ao nosso grupo, ao nosso Caminho...
- A nossa Torre está à vista... sabem o que temos de fazer... amanhã descansamos... mas esta é uma longa noite...
Os seus olhos brilharam na noite com o luar...

domingo, setembro 02, 2007

A Visão


Na escura noite em que o cavaleiro nos levou a mensagem todos pressentimos de que algo não estava bem, só aquela fogueira nos pareceu real, a própria Lua, companheira dos solitários e caminhantes, parecia diferente...

Atrás de nós pareceu-nos ouvir um estalar de ramos, como se alguém andasse perdido naquele imenso bosque. Olhámos uns para os outros, pareceu-nos que ninguém faltava, mas ao mesmo tempo alguém que deveria estar connosco não estava e isso perturbou-nos a todos...

O mais velho de nós apagou a fogueira e disse:

- Temos de seguir, como sabem está na hora, a Lua deu-nos o sinal... hoje é a noite da batalha, aquela que todos tememos e aquela que todos esperamos.

Alguém então perguntou...

- Quem anda na floresta?

O velho sábio olhou para nós dizendo:

- Quem procura encontra, somos mais do que somos aqui... há guerreiros da Luz que nos acompanham sem saber, no entanto estão no caminho certo... um dia quando acordarem seguirão, mesmo de olhos vendados e na noite mais escura a Luz que nunca viram mas que sabem existir...

Seguimos em frente... o som de alguém atrás de nós, por momentos, deixou-se de ouvir... o nosso companheiro desconhecido havia de voltar a encontrar o nosso caminho... e isso para todos nós era uma verdade.

Torre



Lembro-me que era fim de tarde. Estava em casa. Talvez lesse um livro ou qualquer coisa do género. Era o meu último dia de férias. No dia seguinte teria impreterivelmente de me apresentar ao trabalho.

A luz que entrava pelas amplas janelas da sala começava a definhar e a dar espaço para as sombras crescerem. Se quisesse ir dar o tal passeio que pensara pela mata circundante à minha casa teria de sair agora, caso contrário ficaria demasiado escuro e seria já noite demais.

Levantei-me do sofá num único impulso, apanhei a chave de casa e saí. Atravessei a estrada tomando o caminho da mata. As altas árvores já nem me deixavam ver o por do sol, mas havia ainda claridade mais do que suficiente.

Em vez de seguir os trilhos do costume resolvi experimentar algo de novo. Porque não seguir aquele esboço de carreiro que se afundava mais ainda no vale? Pelo estado reparava-se que não era usado há muito. "Que se lixe!" Avancei destemido.

Desci e subi, subi e desci, enquanto as sombras iam tomando conta do mundo à minha volta.

A noite cercava-me como um anjo ou um demónio.

Que horas seriam já? Na realidade não importava muito... não lamentava ter trazido apenas a roupa que me cobria o corpo e a chave de casa. Não podia dizer que tivesse saudades do meu relógio ou do meu telemóvel. Sentia-me bem assim livre do tempo e do mundo.

Todavia, continuava a subir montes e descer colinas sem fazer a mínima ideia de onde estava.

Nunca me tinha afastado tanto nos meus passeios pela mata.

O som errático dos meus pés a pisar a pedra no chão (não lhe chamaria já passos) e a madeira que acariciava com a palma da minha mão numa pausa para descansar...

Esta sensação era-me familiar...

Com uma ligeira diferença... a pedra tocava-me a mão e a madeira sustentava os meus pés.

Se fechasse os olhos quase conseguia ouvir outros sons a dançar com o cantar dos grilos embalado no silêncio do fim de tarde, principio de noite na mata...

Estava parado a meio caminho das escadas de madeira da torre do castelo, uma mão poisada sobre a pedra e outra sobre o meu coração, os olhos fechados apesar da noite ir já adiantada.

Lá longe... música... Uma gaita de foles e... tambores? Sim. Outro ruído... O crepitar duma fogueira! Vozes... Pisotear... Ah! Pessoas a dançar à volta da fogueira! Copos a ser erguidos no ar, o vinho a salpicar o pó. Uma festa! Quem sabe não acabou de nascer o principe herdeiro deste reino? Ou talvez esta seja a última noite antes da derradeira batalha contra o temível inimigo aquartelado do lado de fora da muralha...

Acho que reconheço um outro som... mais em cima... este suave restolhar devem ser os estandartes e a bandeira deste jovem e imberbe país a bailar também ao sabor do vento no topo da torre.

Quem sou eu aqui parado a meio das escadas da torre? Serei um soldado que sobe para render a vigia às legiões inimigas? Talvez seja o rei que desce para se juntar às comemorações pelo nascimento do seu primogénito. Posso até ser um simples aprendiz de ferreiro à espera da amante, uma das aias da rainha, que conheci numa outra noite como esta, quando procurava alcançar o cimo da torre para experimentar as asas por mim construídas para voar e maravilhar o coração dos homens.

Talvez esta seja a altura certa para eu abrir os olhos...

Mas o que fazer quando a escuridão é tão grande com os olhos fechados quanto com eles abertos?

quinta-feira, agosto 30, 2007

Sombra colorida


Por muito que se esforçasse no contrário, era sempre defronte à fachada daquele prédio que acabavam os seus périplos nocturnos cidade fora.

Durante algum tempo acreditou que as cores que via nos diferentes apartamentos fossem um efeito colateral das suas insónias.

Procurou em vão o mesmo prédio à luz do dia, sem nunca o descobrir.

Até que uma noite um outro filho da madrugada passou por ele diante da fachada, abrandou o passo e comentou: "É curioso, parece um mosaico a marcar a posição de que nem a escuridão pode vencer as cores dos nossos sonhos... E ali também ninguém dorme."

Ele ficou atordoado pelo eco destas palavras misturado com o som dos sapatos do desconhecido afastando-se... apossara-se de si um medo mais antigo do que os próprios homens.

Não lhe chegara a ver o rosto, fascinado que estava com as sombras coloridas a executarem uma misteriosa coreografia do lado de lá do amarelo, do verde, do vermelho, do azul... desviou o olhar e ficou a ver aquela silhueta a perder-se na incógnita de mais uma esquina na cidade levemente submersa num estranho e fantasioso nevoeiro.

Todavia, aquela voz era-lhe estranhamente familiar... aquela silhueta não lhe era de todo desconhecida... como se do seu próprio pai ou do seu próprio irmão se tratasse... ou mais próximo ainda...

O desconhecido sabia mais do que ele acerca daquele intrigante edifício. Talvez o estranho fosse um deles... um daqueles que dançavam na cor do sonho...

De repente lembrou-se de onde conhecia aquela voz... Claro, como não se apercebera imediatamente!

Aquela era a sua voz! Mais madura é certo, mas era a sua voz.

Aquela era a sua silhueta! Talvez algo mais curvada pelos anos, sem dúvida, mas era a sua silhueta.

Sorriu e voltou a olhar para a fachada.

Sim, lá estava Ele-Eu num apartamento a ver televisão... A que programa assistiria? Uma série policial? Um reality show? Não, esperem... Ele sabia... Naquele aparelho passava a desoras o filme que contava a história dum homem parado diante da fachada dum certo e determinado prédio, travando um braço de ferro entre a escuridão e as sombras dos seus sonhos.

Encolheu os ombros, bocejando. Era a altura de regressar a casa.

Apercebia-se agora que um dia saberia as respostas para as dúvidas, questões e perguntas que hoje não o deixavam dormir.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Anjos Na Noite



" - Os anjos da noite protegeram-te dos medos e lembranças que tinhas quando eras criança, hoje és livre, hoje não precisarás mais da minha protecção... tu és um de nós... hoje és tu que guardas da noite os pesadelos de outros, recordações em que a saudade não é bem vinda...
Hoje fazes parte do exército que, silencioso, marcha a caminho da Luz porque lá é o teu destino... lado a lado com os teus irmãos de batalha..."

sexta-feira, agosto 24, 2007

Um Dia


Um dia talvez outra vez...
quem sabe...
se sim...
ou não...
e quem sabe,
talvez saiba,
sem saber o porquê e a razão...

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