

Já
Sun City
Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui


Sun City


Eu aspirava o ar puro da Rua do Horizonte, perdendo o meu olhar algures entre a terra e o mar, quando aquele estranho personagem me abordou com ar de vago mistério, tomou-me o braço e, apontando a casa do outro lado da varanda para o vale, sussurrou-me ao ouvido:

- Tive agora uma sensação tão estranha... - Disse ela olhando em volta. - Poderia jurar que já estive aqui... Eu já estive neste lugar com alguém, embora seja a primeira vez que piso este chão.


Por vezes penso que esta viagem não foi feita para mim, que tudo não passa de um sonho, de um conto contado por alguém a um menino e onde tu habitavas a minha história sem que eu te conhecesse sequer...
Naquele dia, nesse conto, vivido por nós, adivinhámos um futuro que, de tão longínquo, pensámos nunca alcançar.
Éramos os heróis da nossa história, de uma história sem fim, onde a eternidade ocupava o nosso espaço e onde tudo era possível...
Fui eu que adivinhei o nosso futuro naquele dia.... quando te perguntei... " e se não der certo?".
Esquecemos a resposta mas o Tempo não...
Habitaremos até à eternidade juntos...
Até que o Tempo queira...







Eu não sei ver o futuro, eu não sei ler as palmas das mãos... Ainda assim, ainda que o pudesse fazer, creio que o meu pessimismo natural não me impediria de olhar para o amanhã com despeitada desconfiança.


Eu sou o passageiro involuntário... o convidado inesperado... o hóspede na minha própria casa...

Querem saber porque é que eu vendi a minha casa e comprei uma autocaravana? Não é segredo, não o escondo de ninguém. Espero até que a minha história vos possa ser de alguma utilidade.


A minha, a tua, a nossa viagem não dura mais que um sopro de eternidade... igual à viagem de uma folha de plátano que um dia, por ter chegado o seu Tempo, se soltou na imensidão, guiada por uma gota de água da chuva que guarda um imenso Universo por descobrir, dará Vida a uma Terra sedenta e ávida que guarda as sementes de novas vidas, novos mundos, novos sonhos e onde o teu coração pulsará eternamente...




Na escura noite em que o cavaleiro nos levou a mensagem todos pressentimos de que algo não estava bem, só aquela fogueira nos pareceu real, a própria Lua, companheira dos solitários e caminhantes, parecia diferente...
Atrás de nós pareceu-nos ouvir um estalar de ramos, como se alguém andasse perdido naquele imenso bosque. Olhámos uns para os outros, pareceu-nos que ninguém faltava, mas ao mesmo tempo alguém que deveria estar connosco não estava e isso perturbou-nos a todos...
O mais velho de nós apagou a fogueira e disse:
- Temos de seguir, como sabem está na hora, a Lua deu-nos o sinal... hoje é a noite da batalha, aquela que todos tememos e aquela que todos esperamos.
Alguém então perguntou...
- Quem anda na floresta?
O velho sábio olhou para nós dizendo:
- Quem procura encontra, somos mais do que somos aqui... há guerreiros da Luz que nos acompanham sem saber, no entanto estão no caminho certo... um dia quando acordarem seguirão, mesmo de olhos vendados e na noite mais escura a Luz que nunca viram mas que sabem existir...
Seguimos em frente... o som de alguém atrás de nós, por momentos, deixou-se de ouvir... o nosso companheiro desconhecido havia de voltar a encontrar o nosso caminho... e isso para todos nós era uma verdade.

