Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

segunda-feira, junho 30, 2008

A braços com o Tempo


"Os braços do tempo são as asas com as quais voa a Imaginação." Segredara-lhe o vento.

Nenhum dos seus Mestres tinha uma voz, e, todavia, todos lhe transmitiam preciosos ensinamentos.

Tanto aprendera com as árvores, com os rios, com os rochedos, com as próprias cidades... tudo existia à semelhança do homem: nascia, crescia e, inevitavelmente declinava.

Esta era afinal a história das Coisas, dos Homens e dos Impérios.

E que melhor ensinamento do que este?

quinta-feira, junho 26, 2008

Salto Alto


De pulinho em pulinho se rasgam as distâncias, ouvira dizer em criança. E ela era fatalmente uma mulher de distâncias... a sua vida era feita de curtas, médias e longas distâncias. Mas no dia seguinte os mapas perdiam as anotações das coordenadas da jornada anterior. A página de ontem do diário de bordo revelava-se constrangedoramente em branco. Magia? Mistério? Ou esquecera-se simplesmente da caneta em casa? "A tinta permanente pode ser a mais terrível das armas de sedução." Lamentou. "Quem diabo é que disse que todas as mulheres fatais gostam de saltos altos?"

segunda-feira, junho 16, 2008

Nas asas do Tempo

No voo interrompido dum pássaro em cativeiro é contada
a história do ar, do vento e do tempo.



sábado, junho 14, 2008

"Imponderabilidade"


" As imagens que falas mudam com o Tempo, todos mudamos... quais viajantes de uma carruagem em que embarcámos um dia...
Imagino o meu primeiro dia de viagem, em que o próprio sol era eu, onde os castelos eram os meus sonhos e onde o céu era a estrada que me aguardava numa viagem ao Cosmos..."

segunda-feira, maio 26, 2008

Um lugar no Tempo



E se não fosse a primeira vez que viajas por entre estas montanhas? O sentir que, de algum modo, pertences a este lugar, a este espaço de onde um dia partiste de asas ao vento...
No silêncio da madrugada tens a certeza de que parte dos sonhos o Tempo os guardou, nalgum recanto da imagem que guardas na tua memória...
E perguntas ao Tempo qual o teu lugar na imensidão...
Um dia... tu sabes... o Tempo te responderá...

quinta-feira, maio 22, 2008

A Voz dos Deuses


" E na montanha, lá bem alto, fez-se ouvir a voz dos Deuses, sob a forma de uma melodia... de um cântico... que rompendo o silêncio da noite, lembra aos Homens o Tempo em que nasceu o Universo... "

segunda-feira, maio 12, 2008

Nunca jogues às escondidas com o Tempo


- Nunca jogues às escondidas com o Tempo. - Advertira-o o seu mestre. - Não há como o ludibriar, nem forma de cantar vitória.

Fora ele que plantara aquele pinheiro. Se tivesse sido mais cuidadoso com certeza não teria crescido tão inclinado. Mas este era um argumento falacioso... Seria justo dizer que se o seu mestre tivesse sido mais cuidadoso ele não atravessaria momentos de tão indolente descrença e dúvida, tentando ocultar-se das garras do tempo? E para quê? Sabia que no fundo as mãos do Tempo eram suaves e macias como as duma mulher cega que tentava ler o seu rosto. Sim, porque não acreditar que o Tempo era uma mulher cega muito bela. Vistas bem as coisas o Tempo só seria masculino na palavra... palavra... palavra ela própria feminina. Era com a sua vida que ele fecundava o tempo, dando vida ao momento. Na realidade, não importava saber se o Tempo o podia ver ou não... Cego era ele para ver o tempo.

Aparte de todas as considerações sobre o estado oftalmológico do tempo, como se poderia ele esconder de algo que não vê?

domingo, maio 11, 2008

Operação Espírito


Descer ao fundo de nós pode ser a mais terrível e mais aliciante das aventuras... Como não nos perdermos nas escarpas e labirintos daquilo que somos?

O Alquimista


" Não conseguia deixar de pensar naquela noite em que o seu avô lhe contara a história do Alquimista, o senhor de barbas brancas que poderia transformar os sonhos em realidade e, também, qualquer realidade em sonho.
Só agora a uma distância tão longa no Tempo entendeu as palavras que o seu avô lhe tentara dizer... se ele fechasse os olhos poderia sentir de novo aquele olhar tão meigo que só os avós possuem e ouvir de novo a sua voz a contar-lhe a sua própria história... a história do Alquimista..."

sábado, maio 10, 2008

Amigos para sempre


Deixara escrito na parede da sala de estar da casa de um dos seus companheiros de caminho:
"Sê bem vindo à corrente
meu caro amigo Marcelo,
que nunca rebente à amizade
um único elo."
Imortalizando pelos tempos vindouros não só a celebração de mais um aniversário, mas acima de tudo a celebração daquilo que os juntara em redor duma mesa bem recheada de comida e de bebida: uma amizade à qual os anos de separação não beliscariam minimamente, uma camaradagem que funcionava por inércia e um companheirismo que nunca necessitaria do combustível das palavras para funcionar.

quinta-feira, maio 08, 2008

Recortes do Tempo


" Ao longe ele sabia o que as nuvens lhe desvendavam um segredo, mas também sabia que não era ao pé dos seus amigos que alguma vez diria algo sobre a imagem que lhe lembrava aquela manhã em que percebeu que estava sózinho no maior Caminho que o Universo poderia entregar a alguém, e que o peso de tamanha solidão só era aliviado lá bem no alto, onde as nuvens escrevem o destino de quem as sabe ler... a Luz daquela manhã pertencia-lhe e disso ele tinha a certeza... "

Sempre e ainda mais que o sempre


E poderia o Estrangeiro, agora regressado, esquecer as lições e aprendizagens das suas viagens? Nunca! Recordá-las-ia sempre e ainda mais que o sempre.

quarta-feira, maio 07, 2008

A Curiosidade


O Estrangeiro sentia como os olhos dos seus concidadãos o seguiam para onde quer que fosse.

Interrogou-se sobre se não teria levado demasiado à letra a sua velha convicção de que a melhor forma de não sofrer era deixar de se importar.

Há muitos anos que o Estrangeiro não pensava na sua pátria, nos seus pais e nos seus amigos. Apesar de saber que não estava livre da acusação de não ser um bom patriota, um bom filho ou um bom amigo, nunca questionara a justeza da sua decisão.

Deixara de se importar para não sofrer a dor à ausência de si próprio e, consequentemente, não sofrer qualquer desvio à missão a que empenhara os seus dias.

Todavia, hoje não reconhecia ninguém quando caminhava na rua ou se sentava num café.

Não se enganara em relação à terra natal a que regressara? Não estaria duas povoações ao lado daquela que o vira nascer?

Não.

Este era o velho café onde em miúdo o Estrangeiro encetara uma volta ao mundo em oitenta segundos (o embrião de outras múltiplas viagens que mais tarde concretizaria) ao redor das mesas... da forma como só uma criança poderia realizar...

A intuição dizia-lhe que o empregado de balcão escondido atrás dum bigode branco deveria ser o mesmo desses dias... o grupo de senhoras idosas duas mesas à frente teria com certeza o hábito ritual do chá das cinco naquela mesma mesa desde antes do seu nascimento...

Porém, nenhuma reminiscência lhe provocavam e nada, para além de atónita curiosidade, lia nos olhares cruzados...

O Estrangeiro esquecera-se da pátria e a pátria esquecera-se do Estrangeiro... nada mais justo ou menos óbvio.

terça-feira, maio 06, 2008

Wake up song


Quão estranho é acordar com o eco de sonhos distantes nos ouvidos... materializarmo-nos de novo sobre a cama onde nos deitámos de véspera e acreditar-nos acabadinhos de chegar duma viagem que não nos caberia nos pés... E, todavia, esta é a mesma cama onde dormimos tantas vezes na nossa juventude, palco de segredos e mistérios bem ou mal desvendados... É estranho concluir que nenhuma viagem nos poderia levar tão longe quanto a cama que alberga a ausência que precede o primeiro dia do resto das nossas vidas...

segunda-feira, maio 05, 2008

Na terra natal dum estrangeiro


O Estrangeiro gostava do portão ferrugento da casa. Gostava da pintura gasta das paredes. Gostava das telhas cheias de musgo. Gostava até das ervas daninhas que se espalhavam pelo jardim.

Eram coisas que o alegravam, mas que o alegravam duma forma comedida, duma forma na margem duma certa desconfiança, pois, lá bem no fundo, o Estrangeiro sabia-se velho demais para ser feliz.

Aquela casa pertencia-lhe. Aparentemente ninguém mais a reclamara aquando da morte dos seus pais. Sim aquela casa era a sua, mas alguma vez poderia ser o seu lar?

sábado, maio 03, 2008

Para além da madrugada


Regressar a casa é como fazer o caminho da saudade ao contrário.

O estrangeiro sentou-se numa pedra do caminho.

É muito fácil ter saudade quando a distância defronte de nós é maior do que aquela que podemos percorrer num dia.

Que aconteceria ao chegar? Seria ele um estranho na sua própria terra ou um velho conhecido em casa alheia?

Não faltava muito para o descobrir...

sexta-feira, maio 02, 2008

A Torre


" Despedias-te daquele dia com os olhos de quem deixa a alma para trás, como se no mais íntimo da alma humana, algo ou alguma voz, te dissesse que eras parte daquele lugar. Voltaste atrás para te certificares que não esquecerias da última visão daquela tarde, a Torre de onde os teus irmãos vigiavam o Mundo. E lá estava imponente e secreta, testemunha silenciosa dos guardiãos e das suas batalhas pelo conhecimento."

segunda-feira, abril 28, 2008

A Memória


A Memória é um conjunto de partes que todas somadas não formam um todo.

Juraria que nunca tinha feito este caminho, porém, aqui e ali, tudo me parece insolitamente familiar... Não tinha estado parado há anos naquele cruzamento com a minha mãe e o meu irmão? Afinal a Memória também perde fatias... tal qual um bolo de aniversário que se vai tornando demasiado pequeno para todas as velas que lá vamos colocando ano após ano.

Não me lembro do futuro, já não consigo prever o passado ...sobra-me o hoje, um presente que não me canso de desembrulhar.

terça-feira, abril 22, 2008

.../...


" Perturbas-te demasiado com o final de algo, porque sabes que implicou um começo... «- Tudo o que começa... um dia acaba...» pensavas tu naquela tarde em que as nuvens vestiam um céu sereno de azul."

terça-feira, abril 15, 2008

O Ciclo da Imortalidade


" Envolto numa Luz a qual me deu a Vida, dou um abraço ao meu irmão que, lado a lado, partilha comigo o campo onde cresci... e... um dia... estarei de volta a este mesmo lugar para renascer e abraçar, de novo, o meu irmão...
Serei imortal... porque habito um lugar onde tudo é possível, onde acreditar não faz parte de alguma Verdade... mas sim, onde acreditar... é a Verdade... "

segunda-feira, abril 14, 2008

A Imobilidade


A mão move-se sem esforço ou dificuldade nos movimentos desenhados dentro dum sonho... não se cansam as pernas e nenhuma proeza física parece impossível.

Quando te pego na mão a meio dum sonho é um toque sem tacto nem sensibilidade... é uma carícia involuntária no veludo do lençol.

E quando te olho olhos nos olhos, ainda no sonho, sei que 6 meses vividos a dois tanto podem ser 3 meses como 12 meses.

Pode-se dizer que se aprendeu tudo quando antes não se sabia nada?

sábado, abril 12, 2008

O Inventor




Quando é que foi segunda feira?

Ontem, hoje ou amanhã?

Eu devia inventar os meus próprios dias da semana ...assim escusava de andar sempre desfasado do calendário!

quinta-feira, abril 10, 2008

O Caminho do Templo do Tempo


" - Percorres um Caminho que te parece longo, ao qual muitas vezes sentes não te pertencer... mas mais vezes ainda sabes que é teu... as razões que pensas existirem na tua própria razão, para o percorreres, são para ti certezas e verdades como o amanhecer...
A Caminho do Templo do Tempo ser-te-ão desvendados os segredos das coisas mais simples, porque são essas que encerram os segredos do próprio Universo do qual fazes parte.

Após ouvirmos aquele sábio Homem todos seguimos para a nossa aldeia onde os nossos familiares nos aguardavam neste mágico entardecer.
Tínhamos pedido ao sábio para nos seguir, mas ele dissera-nos que preferia ficar no bosque, que aquela era a sua casa.

Noutro lugar do Tempo eu também segui o caminho de casa... após ouvir mais uma história do Tempo..."

sexta-feira, abril 04, 2008

O Prisioneiro


O Eremita abriu os olhos e caminhou estremunhado até à boca da gruta. Olhou a floresta a perder de vista. Respirou fundo ao mesmo tempo que se sentava numa pedra no beiral do precepício. A idade começava a fazer-se sentir, embora nunca se houvesse sentido tão jovem como agora. Compôs nos ombros a manta que o protegia do frio cortante da madrugada.

Eis senão quando uma imagem se atravessou entre o Eremita e as verdejantes montanhas.

O Professor levantou-se da cama e dirigiu-se à casa de banho. Não precisou de abrir a janela para saber que o dia estava bonito. Segundos antes do toque do despertador sonhara que se levantara da cama com o toque do despertador e abrira a janela deparando com um sol radioso. Só verificou o quão exacto fora o boletim metereológico dos sonhos quando saiu de casa e correu para o automóvel. Não queria chegar atrasado à primeira aula da manhã na sua nova escola. Acelerou avenida abaixo, ultrapassando todos os carros que conseguia.

Eis senão quando uma imagem se atravessou entre o Professor e a cidade.

O Eremita levantou-se da pedra e sorriu ao pensar em tudo o que o tinha ainda para aprender.

O professor acelerou recapitulando a matéria das aulas que tinha para dar nesse dia.



Dois homens na manhã ...e uma infinidade de outros tantos homens entre um e o outro.

Não serei eu um desses homens entre um e o outro?

quarta-feira, março 19, 2008

Ouvindo Histórias do Tempo


E se o Paraíso não fosse mais que um entardecer mágico onde tu e eu pudéssemos caminhar lado a lado ouvindo as histórias do Tempo?
Perderias tu a fé se a verdade fosse sómente essa... sentirias tu que o mundo te ofereceu pouco... que nada valeu a pena... porque sonhaste com muito mais?

A verdade pode ser tão pouco... e pode ser tanto ao mesmo tempo... cabe a ti escolheres o modo como a entendes... como a queres entender...

Talvez a verdade seja o Paraíso que julgas não ser, talvez o Paraíso seja, por isso mesmo, aquele dia em que caminhaste ao entardecer ouvindo as histórias do Tempo, olhando o mundo com os olhos de alguém que te acompanhava naquele dia... lado a lado... e sem nunca perder a fé...

quinta-feira, março 13, 2008

Metáforas do Teu Tempo


" E todas as coisas passaram a ter existência... o Tempo havia sido criado... a Luz imaginada... sonhada até então... passara a fazer parte de todo o Universo, assim como tu.
A tua própria história terá de ser contada ao Tempo... porque o Tempo a guardará no mais longínquo recanto de um Universo... e um dia... poderás encontrar de novo aquele abraço que há tanto tempo esperas e conheceste sempre... "

segunda-feira, março 10, 2008

AUTOBIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA


Estão na moda as autobiografias falsas... contar na primeira pessoa uma vida mais real do que a própria realidade dos nossos dias.

Na minha autobiografia gostaria de escrever com muitos erros ortográficos... Que melhor maneira de fingir um outro eu, se não errar deliberadamente as palavras menos simpáticas para os meus segredos mais secretos?

Iludirei a correcção ortográfica dos computadores criando equivalentes aos quais ninguém poderá apontar o dedo afirmando: "Mas isto não está mal escrito?"

Assim sendo, os meus pontos fortes passarão a pontos fostes. Neste capítulo caberão todos os episódicos heróis que eu fui em datas já não muito fáceis de identificar no calendário dos anos transactos.

E que dizer dos meus pontos fracos, agora designados de pontos frascos? Que melhor maneira de enumerar as miudezas da minha personalidade do que dizê-las engarrafadas numa catacumba perdida dum edíficio há muito demolido?

Eu sou a luz e a sombra ...o eco dos meus passos, os dos sapatos brancos e os dos sapatos pretos, confunde-se na plataforma ferrugenta duma ponte que sai de mim para mim.

São estes os prós e os contras de ser ao mesmo tempo dois homens a atravessarem uma ponte envelhecida pela idade dos meus olhos...

Tudo está bem quando acaba bem e a minha vida, a depender de mim, está muito longe de acabar.

domingo, março 09, 2008

Simplicidade



O contrário da sombra é a luz, o contrário da luz é a sombra... mas serão estes opostos inimigos? Cá para mim, nos bastidores de todos os seus desaguisados, vivem ambos pacificamente num destino paradisíaco tomando cocktails ao por do sol...

Que seria da luz sem a sombra e da sombra sem a luz?

Sombras Viventes


Num mundo onde as sombras vivem, algures, materializa-se o sonho de alguém.
Brotam flores imaginárias que, de tão reais, o próprio Mundo lhes dá vida.

quarta-feira, março 05, 2008

Deserto Exército


Quando a Guerra acabou as pessoas não bateram palmas mas viram-se muitos sorrisos.

Todas as ruas estavam cheias de sorrisos grandes que não cabiam já nas janelas e nas portas.

Lá longe o exército desintegrava-se guerreiro a guerreiro e no seu lugar nasciam flores que povoavam o deserto que jamais viria ser conhecido pelo nome de campo de batalha.

terça-feira, março 04, 2008

A Luz que segue os teus passos


Julgas escutar o som mágico das palavras de uma imagem quando únicamente és tu que habitas aquele lugar...
És a essência da côr... da Luz, do momento, da entidade a que dás vida e fazes viver...
És o momento exacto em que um poema nasce e através de ti vive...

E além, para lá do horizonte, onde ninguém te escuta... gritarás ao vento...
Serás a própria voz de um Universo que te fez nascer...
Serás o princípio e o fim...

Serás... Deus!

segunda-feira, março 03, 2008

Trilogia Piramido-Urbanística

ToxiCidade
As flores
da minha cidade
são o medo dos campos.



Help


que
não podes
mudar o mundo
muda-te a ti próprio.


Sun City

O sol
não nasce para
todos se o céu tem o mesmo
tamanho que tu e eu e é suplantado
em altura pelos mais banais prédios da cidade.

domingo, março 02, 2008

Alucinações


Na manhã daquele dia olhou-se ao espelho questionando-se quem estava no outro lado...

Sentia-se o Sol e a Lua... o dia e a noite... tudo isso e nada disso...

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Suspeita


Talvez seja pretensiosismo da minha parte, mas não acredito que viajar no tempo seja um dever a que tenho direito...

A minha agência de viagens bombardeia-me com ofertas ao preço da chuva para zarpar em direcção aos períodos históricos mais apetecíveis.

Mas o que posso pedir de melhor do que o dia de hoje, se todos os meus contemporâneos vagueiam, neste rigoroso momento, nalguma zona indeterminada do passado e do futuro?

Prefiro ser um homem só no mundo do que um mundo só no meio dos homens...

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

"E ele sorria mais uma vez..."


" Hoje vieram-lhe à ideia lembranças de outros Tempos... ou talvez fosse sómente aquela imagem que o transportou para aquele preciso momento, àquele derradeiro momento em que um sim ou um não fariam toda a diferença.
Ao fechar os olhos, para relembrar aquele dia, sentiu-se do outro lado... de um lado que não mais voltaria e de onde nunca se despediu...
Ele sabia que que as despedidas eram aquilo que mais temia, sempre o soubera, desde muito cedo... mas sempre o conseguira disfarçar... porque fazemos sempre de conta que aquilo que não gostamos não existe, verdade?... havia mesmo quem pensasse que para ele tudo aquilo era fácil « - Que despegado que ele é....!» diziam as pessoas que nunca o conheceram... e ele sorria... mais uma vez ... todos estavam enganados..."

terça-feira, fevereiro 19, 2008

A Genealogia do Tempo

Eu aspirava o ar puro da Rua do Horizonte, perdendo o meu olhar algures entre a terra e o mar, quando aquele estranho personagem me abordou com ar de vago mistério, tomou-me o braço e, apontando a casa do outro lado da varanda para o vale, sussurrou-me ao ouvido:

- Já reparou que nesta casa, uma vulgaríssima casa , uma casa como outra qualquer, a esta hora do dia se lê o futuro e se revelam todos os segredos do passado? É só preciso saber desvendar, é só preciso saber decifrar... Concorda?

Olhei-o como que estremunhado e respondi:

- Com corda ou com cordão interessa é agarrar o presente... o hoje... o agora...

O homem largou-me o braço abruptamente e afastou-se espreitando-me por cima do ombro com mal disfarçado despeito... Resmungou qualquer coisa entredentes... Não percebi se dizia "A corda" ou "Acorda"...

domingo, fevereiro 17, 2008

Ribeiro Lindo Rebelo


As minhas pegadas serão as tuas pegadas quando eu coloco cuidadosamente os meus pés onde os teus pés fizeram o seu caminho?

A tua voz será a minha voz sempre que dizemos "Amo-te..." à desgarrada?

O rio será o rio ou apenas o veículo por onde passa o barquito onde depositamos um único e singular olhar?

- Amo-te.

- Eu amo-te mais...

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

E Se O Meu Tempo Não Fosse O Teu Tempo?


E se o meu Tempo não fosse o teu Tempo?
Se o voo do pássaro, como lhe chamavas, riscasse o céu só para mim?
E se na cidade branca só eu me perdesse?
Se o meu Tempo não fosse o teu...
nunca os meus olhos imaginariam os teus olhos...
nunca os meus lábios tocariam os teus lábios...
Se o meu Tempo não fosse o teu,
Seria o teu sol diferente do meu?
Seria a tua poesia um Universo que um dia eu descobriria?
Mas o meu Tempo é o teu Tempo...
A tua Alma é o espelho da minha Alma,
Porque eu habito o teu Tempo... e tu o meu...

domingo, fevereiro 03, 2008

Dejá vu

- Tive agora uma sensação tão estranha... - Disse ela olhando em volta. - Poderia jurar que já estive aqui... Eu já estive neste lugar com alguém, embora seja a primeira vez que piso este chão.

- E esse alguém não era eu? - Interrogou ele.

- Não. - Franziu ela o sobrolho.

- Talvez essa sensação não viesse do passado... - Retomou ele a palavra quebrando um curto e vagamente desconfortável período de silêncio . - Quem sabe não sonhaste há muitos anos com este dia em que tu e eu viessemos aqui... muito antes de nos conhecermos... muito antes de de acreditares que um dia estaríamos aqui com a paisagem no coração e o outro no olhar...

- Achas que sim? - Hesitou ela.

- Não sei... - Sorriu ele. - Mas às vezes parece mesmo que as premonições nada mais são do que recordações dum passado remoto e que os dejá vu são apenas e simplesmente memórias do futuro.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

A Memória das Coisas


Não sei se é obra do vento ou se é o mecanismo da memória das coisas em acção: as ervas que dançam na frente do meu caminho fazem uma vénia perante o sopro do vento ou adivinham os passos que eu ainda não dei?

E se a memória fosse feita não só do passado mas também do futuro?

Pergunto-me muitas vezes se os dejá vu já aconteceram ou se ainda vão acontecer...

Quando me sento no regaço do Tempo nunca sei se eu sou o mestre ou se sou o aprendiz...

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Em Busca da Chave Secreta


"Abriu os olhos naquele pequeno mundo onde tudo lhe parecia estranho... não se lembrava da razão da sua viagem, nem tão pouco do que o levara a este reino onde tudo parecia tão... intocável...
O seu mestre falara-lhe em tempos de um lugar onde habitavam as secretas lembranças de uma Humanidade sonhada... o reino de uma qualquer entidade, de onde a Vida partira, para um dia voltar a nascer.
À sua volta escutava a melodia do silêncio, o brilhar das gotas de água da chuva faziam-lhe pensar que estava entre as estrelas além no Cosmos.
Seria este o lugar mágico onde a Verdade lhe seria desvendada? Seria este o Paraíso que em tempos ouviu dizer?
Lembrava-se do seu mestre e das suas palavras... « Todas as respostas estão em ti próprio, só tens de procurar na Natureza a chave secreta... »
Levantou-se e continuou o seu caminho, embora não vislumbrasse qualquer estrada, parecia-lhe, de cada vez que dava um passo, que as árvores e plantas se desviavam para que pudesse passar. Estaria ele a sonhar?
De qualquer maneira o sol fazia-o lembrar que estava uma bela manhã de uma qualquer primavera, num qualquer lugar e num Tempo desconhecidos para ele..."

sábado, janeiro 12, 2008

O Tempo e o Vento


Os pensamentos do homem sem cabeça são transparentes.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

O Leilão


Apressa-te!
Não te atrases!
Está prestes a arrancar o Leilão de Futuros.

Lá compras o que queres, mas nunca o que desejas.


Preferes ser Rei,
Poeta
ou Guerreiro?

Saberás sequer a diferença
entre o ceptro,
a caneta
e a espada?


Apressa-te!
Não te atrases!
Está prestes a arrancar o Leilão de Futuros.

Lá compras o que queres, mas nunca o que desejas.


Quem dá mais, quem dá mais?
A moeda da felicidade não se paga a si própria.
A licitação base é o medo.
Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três...

Vendida ao cavalheiro sem passado!

terça-feira, janeiro 01, 2008

.../...


Por vezes penso que esta viagem não foi feita para mim, que tudo não passa de um sonho, de um conto contado por alguém a um menino e onde tu habitavas a minha história sem que eu te conhecesse sequer...

Naquele dia, nesse conto, vivido por nós, adivinhámos um futuro que, de tão longínquo, pensámos nunca alcançar.

Éramos os heróis da nossa história, de uma história sem fim, onde a eternidade ocupava o nosso espaço e onde tudo era possível...

Fui eu que adivinhei o nosso futuro naquele dia.... quando te perguntei... " e se não der certo?".

Esquecemos a resposta mas o Tempo não...

Habitaremos até à eternidade juntos...

Até que o Tempo queira...

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Maria Faria



Ninguém nasce com vocação
para carcereiro,
ninguém nasce com vocação
de prisioneiro.

Mas não é por isso menos incrível
encontar quem ache preferível
envergar as listas do prisioneiro
no lugar da farda do carcereiro.

Escolher um caminho é abrir uma porta,
deixar entrar um convidado mistério
e sentá-lo na cadeira mais torta
do nosso secreto Império.

E quem o escolheria ainda assim?

Maria Faria.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

A Fuga


" Ele encontrava-se no meio de um lugar onde teria de fazer uma escolha... a viagem a caminho da Luz ou voltar para trás, para os mesmos lugares onde as gélida manhãs e as enebriantes noites frias o aguardavam, dia após dia... hora após hora...
A sua própria sombra já o incomodava, a própria pele sentia-a como se não fosse dele... procurava uma fuga para a sua alma, corpo e mente...
Ao longe a luz azulada da cidade fazia um convite a quem a olhasse...
- Vem até mim... aqui esquecerás as tuas escolhas e sonhos..."

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Noites Para Além do Portal


" - A Porta abriu-se perante eles. Naquela câmara ao longe, bem distante deles, algo os fitava do alto friamente.
Não lhes pareceu humano, mas também não lhes pareceu não humano.
A Porta fechou-se.
O mais velho do grupo dirigindo-se à figura enigmática e ignóbil, perguntou:
- Quem sois?
Um eco fez-se ouvir naquela enorme sala de todos os lados, dir-se-ia que não era sua voz mas sim que dezenas de vozes vinham de um qualquer compartimento interior àquele lugar.
- Sou a Esfinge que se esconde na alma dos Homens, sou o lado submerso do iceberg da mente humana, o lado que a Humanidade tenta esconder... sou o pedaço de pão que sobra e que não é distribuído... sou o reflexo daquilo que a Humanidade não quer ser mas que nalgum lado tem de existir... e existe aqui neste lugar...
Todo o grupo pareceu incrédulo... seria todo o Mal da Humanidade culpa de uma Esfinge.... de uma Coisa? Ou esta seria a nossa consciência, a nossa própria consciência daquilo que não queremos ser, daquilo que nos envergonhamos de ser?
Tudo aquilo parecia muito estranho..."

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