Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Desmoronamentos



"A sombra sofre também dos padecimentos do corpo, a tala numa perna partida implica também a sombra da tala na sombra da perna; é por isso que eu fujo da luz." Explicou ela. "Só saio a esta hora, quando as sombras desmoronam a cidade, e, por breves momentos, o mundo é um lugar seguro para a minha sombra. Se ela não sofrer, nem males de espírito, nem males da carne, é possível que eu não sofra também."


Era esta a justificação para nos encontrarmos assim fugidia e furtivamente no mesmo lugar onde nos havíamos visto pela primeira vez.


Ela enlaçou-me nos seus braços, beijou-me os lábios e perguntou "Amas-me?"


"Amo-te como nunca acreditei poder amar alguém." Respondi, encostando-me à amurada da ponte secular.


"E és feliz?" Quis ela saber.


"O amor não existe para nos fazer felizes..." Hesitei, embora decidido a não mentir. "O amor é o lado de dentro da felicidade, mas nunca, nunca nos deixa entrar verdadeiramente, por mais que batamos à porta..."


Ela desenlaçou-se gentilmente do meu corpo, fazendo os seus braços deslizar de forma suave pelos meus, as suas mãos percorrendo de modo macio as minhas mãos até as deixarem suspensas no vácuo da despedida.


Afastou-se como sempre o fazia àquela hora. Era a sua hora de partir. A iluminação pública começava a acender-se, desmoronando as trevas do lusco fusco, trazendo sabe-se lá que hipotéticos malefícios para a sua sombra.


Eu deixei-me ficar longamente debruçado sobre a ponte, depois da silhueta franzina desaparecer numa das inumeras ruelas da cidade. A minha sombra debruçava-se já também pela ponte, observando também a forma como os candeeiros reescreviam o mundo após a partida do sol. A catedral entrava-me pelos olhos dentro como as lágrimas que eu tentava a custo reter, o rio parecia correr para aquele lugar onde eu nunca, nunca conseguiria chegar.


terça-feira, dezembro 16, 2008

[ A Alma do Tempo... ]


" Ele em criança sabia que os animais eram parte da natureza, habitavam as suas histórias, sonhava e falava com eles a mesma linguagem...
Ele sabia que os animais sentiam e ouviam o mesmo que ele... nem era preciso falar com o seu cão, amigo de tantas brincadeiras, cofre dos seus segredos e seu confidente. Sempre que algo não estava bem, era a ele que se dirigia... abraçava-o e ele retribuía olhando-o fixamente nos olhos... porque é assim a verdadeira amizade... estivesse onde estivesse, perto ou longe, nalgum passado, presente ou mesmo futuro ele lá estava... e já em homem o relembrava com um brilho nos olhos que escondia de todos... porque naqueles momentos voltava a ser criança.
Um dia... teve de partir... não se despedindo do seu amigo de brincadeiras... e nunca mais o viu. O seu coração ficou magoado, mas a vida corria mais depressa que ele mesmo... não se dando conta que aquele cão um dia o olhou sabendo que era a última vez que o iria ver... sim porque os animais sabem mais que nós... e ele só queria um abraço do seu amigo, daquela criança que ajudou a crescer e a tornar-se num homem... mas não se importou... aquele homem seria o seu amigo para sempre.
Um dia ao fechar o portão para partir ele latiu dizendo-lhe um adeus, os sons confundiram-se e o seu " menino" partiu sem olhar para ele...
Anos mais tarde o mesmo homem relembrou-o emocionado a alguém... e esse alguém contou-lhe que algures no Tempo, ele e o seu amigo de criança estavam ainda juntos... habitavam a Alma do Tempo..."

segunda-feira, dezembro 15, 2008

O Lado errado do Tempo


A noite era de lua cheia. Uma subtil luz azul poisara sobre a velha fortaleza e a cidade a seus pés, como uma espécie de pó fosforescente acumulado pelos séculos. As nuvens dançavam diafanamente diante da lua como se de véus se tratassem. Apesar da infinita beleza da noite, voltei a cabeça para dentro da idosa muralha. Sentia uma espécie de chamamento... algo me atraía para dentro do velho túnel... O silêncio das vozes dos milhares de pessoas que um dia tinham atravessado aquela passagem parecia ressoar ainda nas paredes e no chão gasto por incontáveis passos. Aspirei profundamente o ar da noite. Por um momento, acreditei estar no lado errado do Tempo.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

[ O Tempo Carrega as Promessas por cumprir... ]


" O Tempo cansou-se das promessas dos Homens, das suas palavras mansas e das manhas que essas palavras escondiam... negou-se a carregar as falsas promessas da Humanidade.... daqui para diante seriam os Homens a transportar tal fardo.
Passaríamos todos nós a usar de maior cuidado no uso da Palavra?
«- Eu Prometo que...» tornar-se-ia no inimigo principal de uma Humanidade fraca, com Homens falsos e colapsaria perante um peso imenso, maior que o próprio Universo...?"

O Homem na Lua


Há já dois anos que o homem chegara à Lua.

Nunca se esquecera da primeira vez que vira a obra do homem a tocar a lua.

"É uma simples ilusão," protestaram alguns, "algo que daqui a poucos minutos se esfumará como se nunca tivesse acontecido."

O homem sorriu e comentou que uma viagem, maior do que aquelas que se realizam desgastando os sapatos, era empreendida no lado de dentro de cada pessoa.



( Hoje o Paralelo 77 comemora o seu segundo aniversário ;-) )

segunda-feira, dezembro 08, 2008

[ À Procura de um Anjo na Terra... ]



" Caminhando na Terra de ninguém olhando as estrelas,
Fui o bandido, o ladrão, o amante, o cobarde...
Fui o guia, o santo, o pecador, o pai...
Amei e fui amado,
Odiei e fui odiado...
Acreditei e duvidei...
Menti e falei a verdade...
Chorei e fiz chorar,
Pedi perdão e fui perdoado,
Pedi perdão e não fui perdoado,
Conheci o Paraíso e o Inferno,
Sonhei... acreditando nos sonhos...
Sonhei... não acreditando nos sonhos...
Fui o louco e o poeta... não sendo nem uma coisa nem outra...
Abracei uma árvore mas ela não me abraçou...
Conheci a Luz e a escuridão...
Habitei o Tempo e a Eternidade...
Fui Eu, não sendo Eu mesmo...
Apesar de tudo... e apesar de nada...
Procuro um Anjo na Terra!"

domingo, dezembro 07, 2008

Brumosa anunciação


Antes não havia nada. Nem luz, nem trevas, nem som, nem silêncio. Um nevoeiro, que era uma espécie de esquecimento, cobria tudo, que eu ainda não sabia que era tudo. Eu ignorava e na minha ignorância desconhecia a felicidade ou a tristeza. Ser era um fardo que eu não sabia que carregava. E então veio o amor... eu ainda não sabia que era o amor, só o descobriria muito mais tarde na lingua própria em que os poetas se fazem ouvir. Mas inicialmente eu não sabia que era o amor... Calculava que fosse alguma coisa sem nome. Sabia que era algo sem definição, algo que me guiava sem me conduzir, algo que me percorria sem me tocar, algo que não era eu mas também não era outra a pessoa... E então abri os braços e esperei que esse algo me tomasse, me conquistasse, me fulminasse.

domingo, novembro 30, 2008

[ Promessas não cumpridas... ]


" - Lembras ainda daqueles dias?
Perguntas tu no vazio da tua imaginação, quando ontem, olhavas as estrelas da meia noite que cintilavam por entre as nuvens da cidade branca ( como no teu poema...)
Somos tão iguais... e nem sabes quem sou... nem sabes quem és...
A noite não te sabe responder... apesar de olhares pela janela tentando reparar no teu reflexo, não te consegues ver... não te reconheces nos reflexos da noite... mas sabes que a habitas...
E de novo perguntas às estrelas...
- Onde estás? "
.

Olhei para trás


Olhei para trás. Sentara-me numa pedra à beira da estrada. Estava cansado da longa jornada. Tão cansado, que, ao olhar para trás, fiquei espontaneamente surpreendido com todo o caminho já percorrido. O ponto de partida perdia-se para lá dos incontáveis montes já torneados. Nunca acreditaria ser possível transpor tamanha distância apenas pelo meu próprio pé, e todavia...

E então olhei para a frente... Era tal e qual o caminho que via atrás de mim, só que invertido. Passaria perfeitamente pelo reflexo dum espelho mágico. Medi bem a distância ao percurso que me faltava percorrer. Era impossível saber se aquilo que me aguardava até ao fim da estrada era apenas um labirinto invertido do caminho já feito, ou se algo de novo me esperava para além da linha do horizonte.

A bem dizer, tinha duas opções, ou voltava para trás, caminho seguro e que já conhecia, ou seguia em frente, correndo o risco de ser surpreendido pela noite em campo aberto.

Espreguicei-me ainda sentado na pedra. Voltei a olhar para trás e de novo para frente. Poisei os olhos nas minhas botas. Estavam sujas pelo pó da estrada. Levantei-me e olhei mais uma vez para um lado e para o outro. Abandonei a estrada e embrenhei-me no meio do mato.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Pedaços de Eternidade


" Cada dia carrega um momento de eternidade o qual habitamos sem saber... "

terça-feira, novembro 25, 2008

[ O Secreto Segredo do Teu Mar ]


" Numa manhã, num lugar secreto, num Tempo futuro... o silêncio do Oceano irá revelar-te, num murmúrio, o significado que carrega a palavra Amar... e aí compreenderás que as palavras que não foram ditas foram sempre as mais importantes... essas são as palavras da verdade que sempre negaste a ti mesmo... mas essas são também as palavras do verdadeiro amor... "

terça-feira, novembro 18, 2008

A Essência das Coisas


A essência das coisas não cabe dentro das próprias coisas... tentar capturar a essência das coisas seria um pouco como tentar guardar uma gaveta dentro duma outra gaveta rigorosamente igual... e, de qualquer forma, quem é que disse que uma gaveta é para guardar coisas? Porque é que eu não posso ter uma gaveta vazia na minha mesa de cabeceira reservada para a essência daquilo que eu julgo ser?

[ O Sentido das Palavras ]


" Agarras-te ao sentido das palavras para, miraculosamente, venceres mais um degrau da tua existência...
E olhas em redor...
Sem conseguir distinguir o vazio da realidade absurda em que vives e a ti próprio...
Vives suspenso na neblina da manhã da tua própria realidade...
Sabes que és a Noite e o Dia... o Sol e a Lua...
Mas também sabes que há um Amanhã que te pertence... "

domingo, novembro 16, 2008

[ A Melodia do Silêncio ]


" Hoje sentes mais do que nunca o vazio, aquele sentimento que tão bem conheces voltou a habitar o teu peito.
As cores da montanha que ecoavam os teus pensamentos mais secretos, silenciaram esta manhã, quando no teu vale entraste... que aconteceu? Onde estão os pássaros, os teus amigos? Os duendes que sempre te acompanhavam em criança hoje esconderam-se na secreta floresta onde tantas vezes sorriste enquanto falavas com as árvores...
O velho carvalho que abraçaste um dia, sorriu-te e tu nem deste por isso... mas é ao pé dele que te sentes bem, sabes isso quanto eu... cada ramo dessa árvore seguraria o teu coração como se do seu próprio fruto se tratasse, e tu precisas dela, agora mais do que nunca, amanhã mais do que nunca...
Enquanto fechavas os olhos e sonhavas... na montanha uma melodia ecoava pelo vale fazendo-te lembrar que nunca vais estar só, que aquela é a tua casa... "

sábado, novembro 15, 2008

Odisseia


Em tempos idos, seria absolutamente impraticável viver uma vida normal. Muito pelo contrário! Seria pouco menos que impossível escapar a todo um excitante mundo de aventuras... os poetas invocariam musas, o destino dos heróis decidir-se-ia em concorridas assembleias de deuses e as maravilhas e os prodígios suceder-se-iam ao ritmo dos minutos que nunca descansam.

Lamentavelmente, hoje tudo isto mudou. Não sobra nenhum recanto inexplorado deste planeta... Onde resta actualmente um lugar onde se possam esconder monstros, ciclopes, sereias e feiticeiras? E se houvesse, com certeza, existiria bem perto um hotel de luxo, um campo de golf e um Spa.

Ah!, que tristeza viver num mundo em que todas as estradas vão dar a Roma!!!

terça-feira, novembro 11, 2008

O dia que quando chegou já tinha passado


Cheguei atrasado ao teu sonho, apanhei apenas o rescaldo da festa. Tu havias já partido há muito. Havia ainda serpentinas pelo chão e mesas em desalinho. Um ou outro conviva, de copo na mão, alongava-se ainda na descrição de tudo o que eu tinha perdido. Confundiam-me repetidamente com outra pessoa. Estavam convencidos de que eu assistira às mesmas peripécias que não se cansavam de recordar desse teu memorável sonho. Ainda tentei explicar que não, não era eu, mas acabei por me conformar em ouvir o que tanto prazer encontravam em partilhar comigo uma vez mais ...embora tudo aquilo fosse novidade para mim. Ocorreu-me que andasse nesse preciso momento um sósia meu à solta pelo mundo. Com certeza fora esse duplo que estivera lado a lado contigo nesse teu sonho, a que eu, para não variar, chegara atrasado. Pensei em como fora oportuna a minha demora. Poucas coisas são mais perigosas do que conhecermos o nosso outro eu. Dificilmente um de nós poderia sobreviver a tão fatídico encontro. Talvez fosse este sósia que te conhecesse e não eu. Caso contrário, que interesse teria eu em aparecer no teu sonho, e, doutro modo, que sentido haveria em enviares-me um convite que eu não recordo de receber?

segunda-feira, novembro 10, 2008

[ A Côr das Palavras ]


" No momento em que nascem os poemas, as minhas palavras ganham a côr dos teus olhos, e... sonhando-te... viajo contigo lado a lado, na encruzilhada do Tempo...
Sinto o cheiro do imenso mar, vejo o sol reflectir um Cosmos onde os teus pensamentos se diluem... revendo um passado e um futuro...
A tua alma tem asas, os teus olhos sabem a mar e o teu coração bate no meu peito... "

quarta-feira, novembro 05, 2008

Cabeça de Vento


Serão mais felizes as cabeças cheias de vento?

Se o Nada nos correr pelas veias, haverá lugar para a dor no peso pluma do nosso corpo?

Porque será que as perguntas mais interessantes são precisamente aquelas para as quais sabemos que nunca encontraremos resposta?

terça-feira, novembro 04, 2008

[ À distância de um Oceano... ]


" Relembras os pedaços de eternidade que partilhaste,
Sonhas com um Mundo... onde o Tempo não passa...
onde a noite não existe, o dia nunca nasce... e onde um abraço é Eterno... "

sábado, novembro 01, 2008

[ De Volta ao Princípio do Mundo ]


Nada não é o Fim de Nada,
É o retorno ao Princípio de tudo...

E ao longe no Tempo,
Revejo os fantasmas que me abandonaram...

Fecho os olhos,
Gravito em volta da Luz...

Sou o viajante perdido no Tempo que volta...

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