Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

segunda-feira, junho 08, 2009

[ O Peregrino ]


" Abraças as águas que caiem dos céus quando as tuas preces foram ouvidas...

Chegaste finalmente, passo a passo, a mais uma etapa da tua missão...

À noite... secretamente... na tua mente, todos os teus companheiros de caminhada acompanham-te... e escutas as vozes da montanha da cidade azul, que ecoavam nos vales, fazendo-se ouvir a voz dos Deuses num país que não era o teu... "

sexta-feira, junho 05, 2009

Peace Piece


Era uma terra estrangeira, uma língua desconhecida, mas ele há mensagens que são uma linguagem em si própria. O guia levara-os até ao cimo da montanha, haviam-se erguido verticalmente sobre toda a paisagem, levantavam os olhos até aos confins do tempo e do espaço. Mas o melhor estava ainda para chegar. Abandonando a paciência com que os acompanhara toda a subida, o guia disparara encosta acima, aguardando no rebordo duma rocha lá em cima. Quando alcançaram finalmente o patamar, o guia disse algo numa algaraviada impossível de entender e conduziu-lhes com um gesto o olhar, apontando com orgulho a nascente. Talvez fosse do cansaço, talvez fosse da hora tardia, mas a água brotou-lhes dos olhos em inesperada comoção... Estes ténues fios de água não alcançariam o mar, como o faria a frágil cortina de água diante deles, que recolheria outras lágrimas da terra no seu longo percurso até à foz, engrossando e fazendo ouvir cada vez mais forte a sua voz que aqui não era mais do que um leve murmúrio. Mas esta era uma fatia de paz de que nenhum deles desdenharia... um rejúbilio transbordava dos seus corações e inundava-lhes as faces. Todos se acomodaram por aqui e por ali, tomando esta pedra ou aquele tronco de árvore como assento e deixaram-se ficar no silêncio que o suave murmúrio da água beijava. O sol era já só um recorte na sombra do horizonte.

quinta-feira, junho 04, 2009

[ Estrada de Vida ]

" Num lugar esquecido pelo Tempo, secretamente murmuras ao vento o teu maior desejo de todos...
À tua frente as cores daquela tarde, juntamente com a melodia que ecoava lá longe, transportavam-te para aquela tarde onde um dia caminhaste...
Não deixaste marcas na areia por onde passaste, as águas lavaram o teu passado... e um futuro brilhava da côr do ouro à tua frente.
Passo a passo o teu caminho é cada vez mais para junto das águas onde julgas escutar os poemas escritos por ti mesmo... "

domingo, maio 24, 2009

A Linguagem do Tempo


O Tempo tem a sua própria linguagem... As palavras do Tempo são portas escondidas atrás de imagens que se renovam de cada vez que o coração bate em oração a um deus longínquo e incomunicável... A voz do Tempo morre na carapaça blindada dos dias, pese embora a infâmia dos segredos dos homens seja absolutamente ineficaz em calar-lhe o eco.

sexta-feira, maio 22, 2009

[ O Jardim Proibido ]


" Para lá daquelas montanhas antigas
que ninguém conhece...
Ficam os caminhos solitários
que o destino tece..."

segunda-feira, maio 18, 2009

Nunca


Recordas-te dos caminhos que nunca fizemos, das palavras que nunca dissemos e dos beijos que nunca trocámos?
Sim, também a mim me acompanham nos dias que nunca vivi.

domingo, maio 17, 2009

[ Algures no Centro do Mundo ]

" São os teus Caminhos de fé maiores que os meus?
Que sabes tu dos meus pensamentos quando penso em ti mesmo depois de te dizer adeus?
Saberás adivinhar o que sinto quando as minhas mãos tocam as tuas quando na noite escura sigo na estrada contigo a meu lado?
Eu quero caminhar a teu lado e nunca dizer-te adeus... quero ser o teu peregrino...
Pudesse eu guardar-te na memória das palavras escritas pelos profetas... "

sábado, maio 16, 2009

Os Amuletos


Haviam chegado encaixotados num dia como outro qualquer. Vinham de longe, de muito longe. Acumulavam nas suas feições a maturidade dos séculos e a sabedoria da felicidade. Eram demasiado perfeitos ou quem sabe excessivamente belos... a verdade é que a mínima oscilação da viagem fora suficiente para os danificar aqui ou ali. Relegados para as traseiras do templo em breve recebiam mais visitantes que os seu incólumes irmãos. É claro que há sempre alguém para quem a imperfeição será sempre perversamente mais sedutora do que a perfeição.

sexta-feira, maio 15, 2009

[ O Reencontro ]


Na miragem eu reconheci-te
Falei às pedras o teu Nome
Procurei-te dia e noite
Às estrelas perguntei o teu caminho...

E ao Luar, naquela noite fria
Reconheci quem procurei
Eu do meu reino me despedi
És para mim a noite e o dia...

terça-feira, maio 12, 2009

Bom dia


Arrumara as suas coisas antes do nascer do dia. Quando estivesse longe enviaria uma mensagem aos colegas desculpando-se pela partida súbita. Na realidade não sabia se não partira já e se tudo isto não era já apenas uma recordação. O seu coração queria ficar, mas a mente ordenava a partida. A mulher e o filho não o esperavam tão cedo, mas se não partisse agora talvez jamais regressasse. Ao sair do edifício levantou a gola do casaco e brincou com a nuvem desenhada pelo bafo da sua respiração. No percurso entre a casa grande e o carro ficou paralisado pelo surgir duma silhueta já familiar ao dobrar a esquina. Era ela! Mais uma vez ela. Olhou-o nos olhos e disse "Bom dia." Era a terceira saudação que trocavam ...e a última. O homem correu para o carro e partiu sem demora. Não se tornariam a ver. Anos mais tarde, quando voltasse àquela mesma quinta para ainda uma outra reunião, perguntaria ao caseiro do modo mais casual que lhe fosse possível por uma funcionária muito simpática com a qual se cruzara tantos anos antes... O velho caseiro levantaria um pouco a boina e coçaria a testa, acenando negativamente a cabeça. Não se lembrava de ninguém com tal descrição e estava ali ao serviço desde sempre. Cismado seguiria o seu caminho pela quinta e nessa mesma noite, enquanto falava ao telemóvel com o filho, agora um universitário, procuraria o silêncio duma sala reservada da casa grande, deparando com um retrato familiar onde reconheceria um amistoso rosto feminino gasto pelos séculos e pela memória...

segunda-feira, maio 11, 2009

Boa noite


Depois do jantar procurou o refúgio da lagoa. Precisava de respirar e colocar as ideias e os pensamentos tumultuosos no seu lugar. Como que por um passe de magia a gravidade dos assuntos que o haviam trazido àquela reunião parecia ter-se desvanecido completamente, tal qual a neblina que por vezes guardava a superfície da lagoa... a mesma lagoa que tantas recordações parecia evocar, embora fosse a primeira vez que se detivesse diante das suas margens... Sentiu passos atrás de si. Virou a cabeça lentamente. Era ela... "Boa noite!" Desejou-lhe com um sorriso e seguiu o seu caminho sem tornar a olhar para trás. Boa noite... Como poderia agora a noite ser boa senão nos seus braços?

domingo, maio 10, 2009

Bem-vindo


Chegara bastante atrasado ao local da reunião há tanto tempo agendada. Uma mulher caminhou na sua direcção desde a casa grande. "Bem-vindo!" dissera-lhe ela como se o recebesse pela primeira vez... E efectivamente nunca antes se haviam encontrado. Porém ele juraria que se conheciam há muito tempo atrás ...e que esta não era primeira vez que se cruzavam, mas sim a última. Não sabia quem seria a melhor testemunha daquela sensação: a lagoa ou os patos que a atravessavam...

sábado, maio 09, 2009

[ Hasta Siempre! ]


" Era o dia da despedida... olhavam-se pela última vez, olhos nos olhos...
Embora se conhecessem bem e há alguns anos, só hoje repararam que tão diferentes estavam desde aquele primeiro dia em que o destino os fez cruzarem-se.
Sorriram...
- Será que alguma vez nos vamos ver mais?
- Não sei... talvez... há quem diga que não se deve dizer nunca...
- Vai ser duro nos próximos tempos...
- Eu sei que vai.
- Tens de ir...
- Yo lo se... tengo que irme... hasta siempre...
- Hasta siempre... "

quinta-feira, maio 07, 2009

O dia morre amanhã


Tarde na manhã, manhã que é quase tarde... o rio segue placidamente o seu caminho, indiferente ao espectador solitário que sou eu. De forma quase involuntária salto para margem e inclino-me para inspeccionar o leito do rio. O meu reflexo (ou uma versão distorcida do meu reflexo) intromete-se entre nós. Encontro-me comigo próprio, subitamente estranho e misterioso, na superfície do rio, como se não fosse eu, mas o meu pai, o meu avô ou bisavô. É um pouco como se todas as gerações do meu sangue me espiassem com um certo desdém e desgosto. Talvez me recriminem por daqui a alguns anos não estar o filho que não tenho a olhar para mim na superfície sem forma deste ou doutro rio. Mas o que lhe poderia ensinar eu para além da verdade de que o dia morre amanhã?

domingo, maio 03, 2009

[ Tempos Paralelos... ]


" Por vezes acredito em mundos paralelos onde habita o que não existe deste lado de cá, mas acontece-me confundir essas realidades...
Por vezes não sei se estou do lado de cá...
Se do lado de lá...
Seremos nós mesmos essas duas realidades?
Serão esses caminhos paralelos realidades de um só caminho?

De que lado habitas tu?"

quinta-feira, abril 30, 2009

O Burocrata


"Quantas promessas vivem fora de nós?" Lia-se na folha de papel cuidadosamente dobrada. O Burocrata voltou a olhar para o lacre quebrado. Devia ter prestado mais atenção ao selo antes de o quebrar, agora seria impossível reconstituir o brasão que escondia aquela intrigante pergunta. Pegou no telefone e perguntou à secretária quem deixara a insólita missiva. Alguém a deixara por debaixo da porta, ela limitara-se a recolhê-la e a deixá-la sobre a sua mesa de trabalho. O Burocrata levantou-se da sua secretária e caminhou até à janela. Quantas promessas viveriam fora dele? Haveria sobrevido alguma ao peso dos anos e das obrigações? Observou a rua lá fora. Defronte do edifício um homem olhava para cima. Estaria a vê-lo? O Burocrata escondeu-se atrás do reposteiro. O homem lá em baixo não movera uma pestana. Não, não o devia estar a ver. Alguém chamou o estranho. Ele deu meia volta e desapareceu na esquina mais próxima. O Burocrata abriu precipitadamente a janela e tentou ver sem sucesso quem chamara o estranho. Poderia jurar que fora essa mesma pessoa a enviar-lhe a mensagem lacrada.

terça-feira, abril 28, 2009

[ Quantas Promessas Vivem Naquelas Paredes Além? ]


" Ao percorrer as ruas da cidade lembrou-se das promessas que partilhou noutros Tempos... e... passo a passo, percorria de novo os mesmos lugares lembrando cada momento passado... o cheiro era o mesmo, as lojas estavam no seu lugar, como era esperar estarem... mas algo mudou em si mesmo... estaria ele no outro lado do Tempo?
A cidade parecia-lhe ter congelado durante uns instantes e ele sabia, exactamente, por onde passara anos antes...
Nas paredes escuras lia as promessas de outros Tempos, as mesmas palavras soavam através do Tempo como se fossem hoje, a voz de outros Tempos ainda rompia das paredes... até conseguia escutar os seus próprios passos se estivesse atento...
Aquele instante voltara ao normal, estava de novo no seu Tempo... «quantas promessas vivem naquelas paredes além» - pensou antes de alguém o chamar... "

segunda-feira, abril 27, 2009

Momentário


Nunca entendi se se tratou dum momento de sonho ou o sonho dum momento... Quem fora fisgado? O peixe pela cana do pescador lá longe, ou eu próprio pelo isco do Tempo? Pareceu-me ouvir o barulho dum anel a mergulhar no mar no preciso instante em que tudo se incendiou na volúpia do entardecer e um mergulhador do outro lado do mundo descobriu a relíquia a brilhar por entre as cores do coral. Acredito que passe as próximas horas a tentar limpar o precioso achado. Um anel é apenas um anel, mas um mistério nunca será apenas um mistério. Imagino-o a abrir a boca de espanto ao observá-lo atentamente contra o céu. Talvez tivesse o teu nome inscrito do lado de dentro... mas que sei eu? Eu sou apenas o veículo do Tempo.

domingo, abril 26, 2009

[ Histórias de um Tempo ]



" Quantas estrelas estão no céu?

Perguntas tu, enquanto os teus olhos procuram no horizonte a estrela da tarde... e a noite cai, devagar e silenciosa...
Naquele lugar, sentes as palavras que um dia leste, relembras a poesia e materializas cada palavra dos poemas na imagem que se estende à tua frente...
Sonhavas com uma viagem no Tempo, para voltares ao lugar onde a melodia das ondas reflectiam o brilho dos olhos que olhavam o horizonte... em busca... de um abraço... "

quinta-feira, abril 23, 2009

[ O Meu Silêncio... ]



" Ao longe o mar reescreve a poesia que um dia não foste capaz de escrever... e, ao mesmo Tempo, recordas o toque suave das mãos que conheceste...
Hoje o teu silêncio é melodia de uma noite à beira mar... e desejas sentir, num abraço, o pulsar do Universo segredando-te a palavra «amo-te»... "

segunda-feira, abril 20, 2009

As duas estradas


Teria optado bem ao tomar a estrada de cima ou deveria ter seguido a estrada de baixo? Tinha de estar no local da reunião ao princípio da tarde sem falta… De qualquer modo estava tão alto na montanha que isso parecia um pormenor sem a mínima importância, ridículo até! Olhasse para onde olhasse não via vivalma. Nunca se sentira tão longe dos homens e do mundo… Por um momento não se sentia escravo da vida. Que interesse tinha se houvesse perdido o rumo e se encontrasse a milhas de onde deveria estar? Sabia lá se era manhã ou tarde! Talvez fosse apenas tarde na manhã, o compromisso ideal entre dois períodos de tempo irreconciliáveis. Era assim que se sentia: como um homem em que convergissem dois seres separados pelo passado e pelo futuro. A chuva não deveria tardar muito mais... Viesse ela! Que o lavasse de todas as impurezas e inúteis incertezas da viagem!

sábado, abril 18, 2009

[ Para Além de Ti... ]


" No dia em que chegaste a tua casa, mais uma vez te encontraste de novo no teu lugar... só que, desta vez, pareceram-te ser outras as tuas coisas... que te aconteceu?
Seria a tua ausência sentida de forma tão intensa pela matéria que te rodeava, que se distorceu no Tempo e no espaço?
Ou serias Tu mesmo que mudaste?
Olhaste-te ao espelho, lembras-te? E sorriste...
Aquele serias tu mesmo?
Abriste a janela, eu sei que sim... e deixaste entrar a luz da manhã...
Ao mesmo Tempo algo te inquietava... tudo ao teu redor agora te parecia temporário, como se um determinado Tempo estivesse a acabar e um outro Tempo te aguardava algures num determinado futuro... e respiravas fundo tentando esquecer-te daquelas paredes...
Precisavas de uma voz naquele silêncio, a música não te chegava para abafar a tua inquietação...
Abraçaste a tua almofada e obrigaste-te a adormecer num outro lugar... onde o mar soava como uma melodia e o luar guardava no brilho das águas o segredo que guardas no teu peito..."

sexta-feira, abril 17, 2009

O Dom

Sou a chama duma vela perante um tornado,
uma sarça ardente na iminência duma chuvada.
Sou um soldadinho de chumbo com alma de bonecreiro,
um mercenário com medo do escuro.
Sou uma estrada esquecida semeada de ervas daninhas,
um par de botas com as solas gastas.
Sou o brasão duma família falida,
um casarão em ruínas.
Sou uma caneta a que se acabou a tinta,
uma página de papel a que se esborrataram as palavras.
Sou um relógio a quem se esqueceram de dar corda,
um tempo que nunca foi antes de o chegar a ser.
Sou uma cama desfeita depois do amor,
uma insónia adormecida no fundo da consciência.
Sou uma beata de cigarro espezinhada no meio da rua,
as últimas gotas duma garrafa de uísque a ser despejada num copo.
Sou um revolucionário a quem falharam os ideais,
o único sobrevivente dum naufrágio a quem atrasam o salvamento.

quinta-feira, abril 16, 2009

No Outro Lado do Mundo Caminhas a Meu Lado


" Pertenço ao lado de lá... ao outro lado dos pensamentos, onde tu caminhas a meu lado para sempre...
Habita comigo o teu passado, as tuas mágoas, o teu choro secreto nas noites de solidão em criança...
Nas praias desertas que um dia te sentaste... fui eu que te toquei...
Sem o saberes a teu lado estive sempre eu...
Cada palavra dos meus poemas guarda um secreto mundo onde tu habitas... mais do que alguma vez pensaste...
Como eu gostaria de adivinhar-te os pensamentos mais secretos...
Para um dia, no outro lado do Mundo...
Realizar todos os teus sonhos... "

terça-feira, abril 14, 2009

[ Quando o Teu Primeiro Dia é o Teu Último Dia... ]


" Como é possível que passado tantos anos, ainda recordes esse dia, como se fosse hoje mesmo?
O toque das suas mãos, hoje parece-te tão real como naquele dia... a sua voz... parece-te tão límpida que julgas estar a seu lado... naquele caminho, naquele dia... no teu primeiro dia, no teu último dia... o dia em que tudo começou e o dia em que tudo acabou...
Olhas mais além... talvez para um futuro longínquo... e lá adiante, alguém te dá a mão enquanto escutas o imenso Oceano... e voltas a sentir um outro toque nas tuas mãos... que te transporta de novo para o centro do Mundo... e sentes o pulsar do Universo na respiração de quem te abraça..."

sexta-feira, abril 10, 2009

A Passadeira Vermelha


No entanto, à medida que avançava, a passadeira vermelha ia ficando mais gasta e descuidada, parecendo estar a afastar-se no tempo, como se fizesse o percurso inverso ao do alto dignitário para quem a haviam colocado. Se este grande homem teria feito aquele mesmo caminho, começara no ponto para o qual ele se dirigia e dera por terminada a viagem no ponto onde ele a começara. Sentiu uma tontura e uma vertigem, idêntica em tudo à que sentiu no dia em que mergulhara do penhasco mais elevado da baía onde nascera. Por mais que nadasse procurando a superfície não a conseguia alcançar, tendo até considerado que estivesse a nadar rumo ao fundo e não em direcção à superfície. E não teria sido assim? Que garantia tinha de que tudo aquilo que vivera depois não era o passado, mas um futuro que afinal nunca chegaria a viver?

quarta-feira, abril 08, 2009

[ Segue o teu Azul... e até breve... ]


" A voz que sempre te seguiu e te deu forças ergue-se à tua frente num imenso azul... ao longe sonhaste com o mar e a lua... e tiveste o mar e a lua...
És um guerreiro da Luz e não estás só... ao teu lado alguém que está contigo diz-te em pensamento enquanto vislumbras o mar... « Segue o teu azul... e até breve...»"

terça-feira, abril 07, 2009

A Casa


Vestiu o smoking que usara no dia do casamento. Quantos anos se haviam passado? Dois? Três? Vinte? Trinta? O céu estava cinzento e amarelo naquela manhã de Abril ...exactamente como hoje. Olhou-se no espelho na expectativa de encontrar ainda o menino imberbe que usara aquele fato pela primeira vez... Recordava bem como o coração lhe enchia o peito nessa manhã ...como nunca mais voltara a encher. Ainda assim o fato assentava-lhe como uma luva nessa manhã ...agora parecia ter encolhido na proporção do mirrar do seu coração ...ou talvez tivesse sido o seu corpo a inchar na impossibilidade da sua pele destilar todo o álcool que emborcava ininterruptamente. Chegou à janela e deixou-se ficar a medir as alterações que haviam acontecido na paisagem desde que aquela deixara de ser a sua casa. Desencostou-se rapidamente da umbreira ao reparar como o pó vincara um desalento ainda maior no triste e amarrotado fato. Não devia ter voltado ali. O fracasso é muito mais opressor no cenário da derrota. Preparou-se para devolver o smoking ao esquecimento de que o velho guarda-roupa não era mais do que um simples invólucro. Ao passar os olhos pelo quarto algo lhe pareceu estranho. Algo não estava bem ali. Olhou inquisidor a toda a volta até dar com o seu reflexo no espelho... O fato assentava-lhe como uma luva. Tudo estava absolutamente impecável. Os cabelos grisalhos haviam retomado a tez revigorada doutros tempos. Mas apesar da euforia inicial, algo travou o movimento que o impelira para mais perto do espelho. Porque se olhava com tamanha desconfiança? Algo estava errado com todo o quadro... Então lembrou-se... No dia do seu casamento, mesmo antes de sair para a cerimónia, ao passar uma última vez à frente do espelho da porta interior do guarda-roupa dera com uma estranha anomalia no reflexo... via-se estranhamente envelhecido e distorcido. Assustado atirara com uma cadeira ao espelho, que em vez de se estilhaçar em mil pedaços regressara ao normal. Sorrira nervosamente para o seu novamente familiar reflexo e abandonara precipitadamente a casa. Quantos anos se haviam passado desde então? Dois? Três? Vinte? Trinta? De regresso ao presente dava consigo perante um espelho estilhaçado impossibilitado de transmitir o aviso que lhe ficaria eternamente preso na garganta.

domingo, abril 05, 2009

[ No Labirinto do Tempo... ]


" Algures... na noite fria... continuas a caminhar sózinho... tu sabes isso...
Lá em baixo, na cidade branca, recordas os momentos e a voz de quem habitou a cidade e que adorava escrever sobre ela...
Não compreendes a Humanidade nem os Homens que nela habitam, estão tão longe do castelo dos teus sonhos que te parece habitares um outro planeta, um outro Universo... quiçá paralelo ao teu próprio...
No vale em que andaste esta manhã... os pássaros receberam-te como sempre... os cheiros são os mesmos de quando eras criança enquanto descobrias que conseguias voar por entre as árvores altas...
Assim, no labirinto do Tempo, é aqui que te encontras... é aqui que o passado, o presente e um futuro te parece ser a mesma coisa..."

terça-feira, março 31, 2009

Obras no Paraíso


No inavegável cansaço
dum inenarrável silêncio
descobri
um invulnerável pesar.

sexta-feira, março 27, 2009

[ E a noite cai... e um dia nasce... ]

"E a noite cai... um dia nasce...
e tu continuas a fazer querer parar o Tempo...
nas manhãs sonhas com a noite... nas noites desejas as manhãs...
e as noites caem e os dias nascem, uns atrás dos outros...
a Vida é isso mesmo... e o Tempo não espera por ti...

E tu renasces em todas as Primaveras, brilhando ao Sol...
Morres nos Invernos brancos...
Sonhas com as manhãs púrpura...
e deitas-te... nos entardeceres côr de fogo...
E a noite cai... e um dia nasce..."

quarta-feira, março 25, 2009

A seguir:-----------------------------------------------------------------------------------Next:


Respira. Não respira. Respira. Não respira. Deixa o silêncio envolver-te no manto negro do crepúsculo.
As coisas são o que são, as pessoas são como são.
Às vezes não vale a pena lutar, mais vale deixar-nos levar pela corrente.
A vida segue dentro de momentos...
-
Breathe. Don't breathe. Breathe. Don't breathe. Let the silence embrace you in the dark sheet of the nightfall.
Things are what they are, people are people.
Sometimes it doesn't worth a fight, its better to be taken by the stream.
Life follows in a moment...

domingo, março 22, 2009

[ ... e o Tempo passa... ]


" Movem-se as marés e os ventos...
e o Tempo passa...
Procuro nesses lugares as palavras que o vento levou... querendo tocar-te ao longe...
e o Tempo passa...
Como nos sonhos lembro-me daquele luar mágico...
e o Tempo passa...
Caminho no deserto... vagueio na mente de outrora...
e o Tempo passa...
Busco o Passado e o Presente... encontro-me e desencontro-me...
e o Tempo passa...
Atravesso montanhas e vales voando com os pássaros...
e o Tempo passa... "

quinta-feira, março 19, 2009

A cavalo dado


A cavalo dado não se olha o dente. Claro que as motivações dessa oferta podem estender-se da mais altruísta generosidade até à mais insidiosa manobra de diversão que se possa imaginar. Não é possível ter o melhor de dois mundos, embora o diabo não esteja sempre escondido atrás da porta. A suspeita será nossa aliada ou a mais feroz inimiga? A Criança do Tempo senta-se à minha frente e diz "Esta é a História até agora..."

quarta-feira, março 18, 2009

[ Universos Paralelos ]


" Caminhas lado a lado...
Mas não o fazes só...
Ao longe imaginas...
Melodias...
Universos Paralelos sem se tocarem...
São como vozes que chamam...
Sem nunca se encontrarem..."

sábado, março 14, 2009

A Decisão do Imperador


O Imperador decidira reformar-se do amor. Cansara-se das suas vicissitudes e incertezas, preferindo a melancólica tranquilidade da solidão. Decidiu partir para parte incerta, empenhado em não tornar a cair nas garras da paixão... o seu corpo exibia ainda as mal cicatrizadas feridas de 1001 noites de amor. Escolhera nas cavalariças os melhores e mais rápidos corcéis à sua disposição, não fosse dar-se a fatalidade de ser localizado pelo Amor!



Quando todos os preparativos estavam por fim assegurados (sim, que a viagem dum Imperador não é coisa que se execute de ânimo leve!) partiu na sua expedição rumo ao esquecimento. Todos os seus soldados o acompanharam na gazeta ao Amor, escolhendo servir o soberano em detrimento do mais nobre dos sentimentos... A verdade é que já não era de agora que o desencanto em relação ao Amor grassava um pouco por todo o Império.



Após algum tempo, o Tempo cristalizou-lhes o coração. O Imperador e o seu séquito tornaram-se frios e insensíveis. Dentro do peito não lhes restava mais do que um pedaço de vidro. Cansados daquele limbo emocional, sentiram saudades da Dor... Só que no dia em que pretenderam regressar ao convívio do Amor, descobriram que jamais poderiam voltar: o Amor esquecera-os, apesar de eles, malgrado todos os esforços, jamais terem esquecido o amor... "Talvez seja preferível ficarmos por aqui." Murmuraram entre si. "Quem sabe um dia o Amor não fique com saudades de nós?"

quinta-feira, março 12, 2009

[ A Melodia dos Sonhos... ]


" Entrou em casa após mais um dia de trabalho... o silêncio esperava por ele, aquela era a sua casa, no entanto a estranha sensação de que aquele não era o seu lugar tomou, de repente, conta do seu peito...
Afastou tais sentimentos rápidamente, ouvindo a música que o levaria para um lugar longe dali... desejou ser transportado naquela melodia, via-se a si mesmo bem acima do lugar onde nascera... bem acima do lugar que dizia ser a sua casa...
Fechou os olhos... e sentiu-se habitar o maior e mais secreto Sonho de sempre... viajava na melodia dos sonhos e adormeceu no cólo de quem um dia o chamou de menino..."

quarta-feira, março 11, 2009

O Convite


Era ali? Seria este o lugar que procurava? A coordenada mágica onde todos os sonhos se tornavam realidade? Não podia acreditar que a sua busca chegara ao fim!... Quantos não haviam perecido tentando chegar até ali? Quantos não haviam perecido sem sequer se atreverem a sonhar com um local como este? Quantos não haviam perecido sem chegar a compreender que este lugar era um momento e não um espaço? E, todavia, o convite estava escrito na paisagem desde o princípio dos Tempos...

[ Eu acredito em Anjos]

" A Luz que procuras está no olhar de quem amas - dizias tu ao olhares o horizonte enquanto buscavas as palavras certas que pudessem traduzir exactamente o que sentias... e... ao mesmo Tempo... vislumbravas no horizonte quem sempre procuraste...
Seriam os Deuses que materializavam esse teu sonho?
Quem sabe... "

quinta-feira, março 05, 2009

[ O Brilho da Alma... ]


" Ele acordou no vale... a seu lado uma gota de água guardava o brilho da estrela da noite...
Olhou-a mais uma vez e lembrou-se daquele dia em que andaram de mão dada à noite no jardim à beira-mar... pela primeira vez...
Mais alguém saberia o segredo que pode guardar uma pequena gota de água? Quantos saberiam que aquele cintilar era o brilho da sua Alma, guardiã do seu amor, eterna testemunha das suas palavras ditas em segredo... ?"

quarta-feira, março 04, 2009

O Inferno


Na noite em que a Morte morreu, todos os homens e mulheres rejubilaram, julgando-se livres para viver para sempre... crianças planejavam nunca abandonar a escola primária, apaixonados renovavam juras de amor eterno, avós congratulavam-se com a futura oportunidade de conhecerem os trinetos, quadrinetos, etc.
As vozes elevaram-se aos céus, o vinho correu pelas avenidas, o fogo de artifício foi visto a partir dos desertos mais recônditos e inacessíveis.
Todos se alegravam excepto um homem de semblante carregado: ele já sabia que o Tempo parara no momento em que a Morte exalara o último suspiro... Este homem despedia-se do seu passado e perdia qualquer esperança no futuro.
Quando o sol nasceu no dia seguinte só esse homem permanecia acordado, com o olhar fixo nas cores da manhã...
Se algum dia um dia a nave mensageira de alguma civilização escondida por detrás das estrelas chegar à Terra, surpreender-se-à com o olhar vago e indefinido desta estátua. Irá compará-la com todas as outras figuras adormecidas pelo chão das cidades e dos campos, decidindo-se finalmente por levar consigo apenas esta outra mais estranha e insólita como legado final da humanidade.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

A Árvore Fantasma


No caminho de regresso tomou a mata em que tantos e belos momentos haviam partilhado... Foi com algum choque e surpresa que se apercebeu que a árvore onde haviam gravado com um canivete os seus nomes dentro dum coração havia sido cortada. Estendeu a mão e tocou o vazio. De alguma maneira a promessa vivia ainda no fantasma da memória... em certa medida aquela árvore era indestrutível e estava para além do alcance do machado de qualquer lenhador. Sentiu os pingos duma chuva miudinha a escorrerem-lhe pelo rosto. Retomou o caminho, não se podia atrasar para o encontro. Ao dobrar a esquina da estrada que descia o monte virou-se para olhar o coto da outrora viçosa árvore. Talvez fosse um efeito de luz provocado pelo vento e pelas nuvens, mas poderia jurar que a chuva desenhava o contorno do tronco, ramos e folhagem da imponente gigante.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

[ Pensamentos ao anoitecer... ]


" Tinha-lhe prometido que regressaria... nunca poderia faltar a quem consigo partilhou o luar... as estrelas... o vale... o seu secreto mundo...
Tinham passado alguns anos e uma pergunta surgia sempre na sua mente... encontraria a mesma pessoa? Aquele olhar seria o mesmo?
Qual o Tempo Cósmico para se viver um momento como o que viveu?
A música que escutou.... há algum tempo atrás, dizia isso mesmo... «... há quem espere uma vida inteira por um momento como aquele....» e hoje relembrava aquela música... "

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

A Peregrinação


Não sabia como voltar a encará-la... Seria mais fácil voltar atrás e esquecer tudo. Ao fim e ao cabo, embora tivesse ficado no ar a promessa duma promessa, não lhe prometera nada.

Os pés colavam-se-lhe ao chão como se presos por uma força maior do que a própria gravidade: o medo.

E se ela não estivesse lá? E se ela, muito legitimamente, não tivesse acreditado nele? Afinal que nome dar a estas hesitações de última hora que não cobardia?

[ Eu estarei lá... haja o que houver... venha o que vier... ]



" Aquela promessa feita pelo profeta deu-lhe um ânimo à alma que nunca sentira antes... «Eu estarei lá... haja o que houver... venha o que vier...»... seria mesmo assim? Seria uma promessa eterna? Ou teria um Tempo... como tudo no Cosmos?
Pelo modo como o ouvira dizer, pelo olhar intenso olhando nos seus olhos não teve qualquer dúvida... aquela promessa teria um Tempo de Eternidade maior do que qualquer outra coisa que já existiu ou existirá...
Subiu a colina e olhou o farol, testemunha silenciosa do que acabara de relembrar, e pensou «Eu sei que estarás lá... espera por mim... eu irei ter contigo, haja o que houver venha o que vier... »

domingo, fevereiro 15, 2009

[ O sentido sem sentido de um caminho... ]


“ E ele seguia o caminho que tantas vezes percorria, passo a passo, ouvindo o respirar do Tempo…
Nunca questionou a razão de ser daquela sua vida, daquele seu destino, nem sequer duvidava que pudesse ser diferente… «acomodara-se» pensava ele enquanto, devagar, o seu olhar se fixava nas aves que voavam ao longe, da côr do pôr-do-sol, daquela tarde de inverno...
Ele sabia que dentro de si havia perguntas às quais não queria responder, até o simples facto de pensar nelas lhe fazia um certo mal-estar, e, por isso mesmo, a solução de momento era sentir-se da côr daquelas aves que via todos os dias ao entardecer e esquecer a resposta às suas perguntas... “

sábado, fevereiro 14, 2009

A Visita


Durante a visita ao Palácio, uma mulher grávida acompanhava o grupo à distância de dois passos. O professor reparava nela pelo canto do olho de tempos a tempos, quando voltava ou levantava a cabeça para observar mais atentamente algum pormenor da imponente arquitectura ou da majestosa decoração do Palácio. Confessaria mais tarde que não lhe despertara grande atenção, pelo que não chegara a olhar bem para a cara dela. Ao subir a escada o professor reparou que a mulher afinal não estava grávida. Mais peculiar do que isso era o facto de se fazer acompanhar por uma criança muito pequena, mas que já andava pelo seu próprio pé. Voltou a não fitá-la com atenção, até porque não queria dar muito nas vistas. Enganara-se, com certeza. Algumas salas mais adiante, enquanto observava um magnífico castiçal, voltou a dar pela mulher pelo canto do olho... grávida! Ficou tão espantado que desta vez demorou os olhos nela. Apesar de a ter apanhado de perfil, a sua figura despertou-lhe um estranho sentimento de familiaridade. Donde é que a conhecia? Desviou o olhar antes que ela se apercebesse do seu interesse e seguiu para a sala seguinte. Alguns passos adiante, não resistiu... virou-se disfarçadamente para trás. E lá estava ela com o mesmo largo vestido, mas com o ventre liso. Dizia qualquer coisa à criança que com um ar traquinas mexia num cortinado... "Não mexas aí, senão ralham connosco." O miúdo também não era de todo estranho ao professor, embora não conseguisse recordar de onde o conhecia. Embasbacado e desconcertado seguiu caminho e não se atreveu a olhar de novo para trás.

Nessa noite, o professor acordou a meio dum sonho em que recordava quando a sua falecida mãe lhe dissera que visitara aquele palácio apenas por duas vezes: uma enquanto estava grávida dele e a outra quando o professor não tinha mais de três anos.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

[ Lugares de Outrora... ]


" Por onde quer que eu vá... caminho como se fossemos só um... "

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