Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

domingo, setembro 23, 2007

Décadas


Não tardará já muito para enviuve também do Tempo...

O Tempo foi o meu amigo, o meu confidente, o amante secreto aos braços do qual eu nunca pude fugir.

O Tempo usou-me, exactamente da mesma forma que eu o usei a ele também.

O Tempo usou-me para redigir o seu diário, escreveu-me em cada ruga, em cada cabelo branco, mas hoje, quando me olho no espelho, o que leio é a minha história passada, presente e futura.

Este corpo é somente um souvenir... um novo recuerdo de alguma coisa mais luminosa e absurda que não cabe em palavra alguma.

Estes cabelos brancos em pouco diferem do cacho de caracóis de bebé que os meus pais guardarm no álbum fotográfico da minha infância.

É dificil começar tudo de novo... sentimos o fogo dentro de nós.

Custa a acreditar que algo queime mais do que o sol, porém há algo mais quente e incandescente do que o núcleo solar... o seu nome é sabedoria... vem misturada com o sabor acre do fogo, enchendo-me duma sede que água alguma poderia saciar e secando-me de dentro para fora e de fora para o mundo, numa vertigem que voa no interior dos meus olhos.

É este o sabor da liberdade?

É isto que é ser livre?

O tempo zomba de mim, condensando em poucos segundos aquilo que demorou uma vida a escrever em mim... como se limitasse a poucas linhas o último volume da saga que redigiu com o meu nome.

Em certa medida não o deveria recriminar... Este é o fogo de artifício do final dos tempos... estes são os últimos segundos do último ano, da última década, do último século do milénio final.

Não haverá outro mundo como este.

Nenhum outro mundo será observado num misto de temor e respeito por estes velhos olhos...

Todavia...

Sem desculpas, sem medos, sem saudade, tudo volta ao seu lugar.

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