Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

domingo, setembro 02, 2007

Torre



Lembro-me que era fim de tarde. Estava em casa. Talvez lesse um livro ou qualquer coisa do género. Era o meu último dia de férias. No dia seguinte teria impreterivelmente de me apresentar ao trabalho.

A luz que entrava pelas amplas janelas da sala começava a definhar e a dar espaço para as sombras crescerem. Se quisesse ir dar o tal passeio que pensara pela mata circundante à minha casa teria de sair agora, caso contrário ficaria demasiado escuro e seria já noite demais.

Levantei-me do sofá num único impulso, apanhei a chave de casa e saí. Atravessei a estrada tomando o caminho da mata. As altas árvores já nem me deixavam ver o por do sol, mas havia ainda claridade mais do que suficiente.

Em vez de seguir os trilhos do costume resolvi experimentar algo de novo. Porque não seguir aquele esboço de carreiro que se afundava mais ainda no vale? Pelo estado reparava-se que não era usado há muito. "Que se lixe!" Avancei destemido.

Desci e subi, subi e desci, enquanto as sombras iam tomando conta do mundo à minha volta.

A noite cercava-me como um anjo ou um demónio.

Que horas seriam já? Na realidade não importava muito... não lamentava ter trazido apenas a roupa que me cobria o corpo e a chave de casa. Não podia dizer que tivesse saudades do meu relógio ou do meu telemóvel. Sentia-me bem assim livre do tempo e do mundo.

Todavia, continuava a subir montes e descer colinas sem fazer a mínima ideia de onde estava.

Nunca me tinha afastado tanto nos meus passeios pela mata.

O som errático dos meus pés a pisar a pedra no chão (não lhe chamaria já passos) e a madeira que acariciava com a palma da minha mão numa pausa para descansar...

Esta sensação era-me familiar...

Com uma ligeira diferença... a pedra tocava-me a mão e a madeira sustentava os meus pés.

Se fechasse os olhos quase conseguia ouvir outros sons a dançar com o cantar dos grilos embalado no silêncio do fim de tarde, principio de noite na mata...

Estava parado a meio caminho das escadas de madeira da torre do castelo, uma mão poisada sobre a pedra e outra sobre o meu coração, os olhos fechados apesar da noite ir já adiantada.

Lá longe... música... Uma gaita de foles e... tambores? Sim. Outro ruído... O crepitar duma fogueira! Vozes... Pisotear... Ah! Pessoas a dançar à volta da fogueira! Copos a ser erguidos no ar, o vinho a salpicar o pó. Uma festa! Quem sabe não acabou de nascer o principe herdeiro deste reino? Ou talvez esta seja a última noite antes da derradeira batalha contra o temível inimigo aquartelado do lado de fora da muralha...

Acho que reconheço um outro som... mais em cima... este suave restolhar devem ser os estandartes e a bandeira deste jovem e imberbe país a bailar também ao sabor do vento no topo da torre.

Quem sou eu aqui parado a meio das escadas da torre? Serei um soldado que sobe para render a vigia às legiões inimigas? Talvez seja o rei que desce para se juntar às comemorações pelo nascimento do seu primogénito. Posso até ser um simples aprendiz de ferreiro à espera da amante, uma das aias da rainha, que conheci numa outra noite como esta, quando procurava alcançar o cimo da torre para experimentar as asas por mim construídas para voar e maravilhar o coração dos homens.

Talvez esta seja a altura certa para eu abrir os olhos...

Mas o que fazer quando a escuridão é tão grande com os olhos fechados quanto com eles abertos?

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