Nem tudo começa aqui e nem tudo acaba aqui

Uma viagem conduzida por:

domingo, janeiro 14, 2007

Velocidade da Luz


Encostara o meu carro à berma. Cansaço talvez. A viagem durava há muito, mas só agora era altura do regresso a casa. Tentei calcular dali a quantas horas poderia dizer "lar doce lar". Podia contar com todo o tempo que gastara até chegar àquela vereda e mais ainda o imposto de valor acrescentado inerente a um dia que já ia longo.

Aspirei o ar frio da noite que implacável se aproximava. Íria fazer toda a viagem às escuras, atravessando longas extensões de estrada que passavam por lugar nenhum. Talvez o carro avariasse, talvez não houvesse rede de telemóvel, talvez eu adentrasse a noite escura, como quem mergulha num passado distante, onde não há carros, nem telemóveis, nem bilhetes de identidade, e a manhã encontrasse apenas o meu carro abandonado na borda da estrada, porta aberta e o rádio a cantar uma canção para ninguém.

Um carro dobrou a curva e aproximou-se de mim encadeando-me com a luz branca dos seus faróis e desapareceu para trás das minhas costas.

Um carro passou de cá para lá, deixando uma memória vermelha que se gravou a fogo no meu olhar, continuando a ver-se mesmo muito depois de se ter desvanecido para além da curva.

Os dois carros cruzaram-se no meu olhar, talvez à velocidade da luz, e levaram-me para norte e para sul, para poente e para nascente, para ali e para além... o meu carro ficou com a porta aberta, o rádio continuou a cantar uma canção para ninguém.

3 comentários:

António Gil disse...

A Velocidade da Luz...que o genial Einstein considerou insuperável...se a conseguissemos alcançar o Tempo parava,deixaria de ser relativo e nós seriamos eternos...Mas a Natureza da Mente não será instantânea e não seremos mesmo eternos ? E não somos Luz ?...;)grande e amigo abraço...

Sandra Marques disse...

A tua imensa capacidade de de transformar pequenos pormenores num mar de ideias ... continua a viajar à velocidade da luz e tudo terá mais significado.
Beijinhos.

Passageiro do Tempo disse...

Por momentos fui levado a um Tempo em que, eu próprio, encontrava esse carro abandonado com a música a tocar para ninguém....
Grande abraço meu amigo!

Arquivo do blogue